Há dois anos atrás, no meio de uma depressão, escrevi no meu diário “Pergunto-me se a Sylvia Plath e a Virginia Woolf poderiam ter sido salvas com meditação”.

As suposições eram patentes – primeiro, o meu ceticismo no que toca a meditação, que a minha psicóloga na altura insistia todas as semanas; segundo, a convicção que artistas têm de sofrer para serem bons; e, por último, o pensamento de que não havia nenhuma cura para o tipo de dor que eu estava a sentir. Agora, olhando para trás, nada disto faz sentido, porque depressão é uma doença bem conhecida e, se te atreveres a ser vulnerável, és capaz de descobrir que dois ou três amigos já passaram – ou estão a passar – pela mesma situação.

A minha depressão era sobre desespero mas, acima de tudo, aborrecimento. Eu escrevi no meu diário: “Quando eu andava nos escuteiros, eu costumava pensar “Bem, hoje é Domingo, 7 da manhã, e às 22h eu estarei com os meus pais… Isso são quinze horas, o que parece muito, mas agora de manhã vou estar ocupada a desmontar as mesas e cadeiras de madeira, a arrumar a mala, a tirar as estacas da tenda do chão, a tomar o pequeno almoço… Eles disseram-nos que depois do almoço íamos embora… E depois o comboio, e depois outro, e da estação até à sede, e depois estarei em casa. Portanto, estarei ocupada e o tempo voará”. A questão é que, hoje em dia, eu não posso usar o mesmo tipo de raciocínio. Pelo menos não a longo prazo – não posso continuar a dividir e contar o tempo que falta nos próximos um, cinco, dez, vinte, quarenta anos…”.

Na altura, era difícil para mim processar o meus sentimentos, e a maior parte das páginas do meu diário contêm pensamentos sobre o tempo e a angústia que eu sentia quando, dia após dia, o dia de amanhã se tornava o de hoje. Mas depois de alguns bons meses, eu cheguei à conclusão que a não ser que eu quisesse acabar da mesma maneira que as escritoras referenciadas acima, eu tinha de pedir ajuda para sobreviver “à soma dos dias”. Naquele período, eu escolhi uma psicóloga simpática mas muito pragmática que me fez mudar a minha atenção dos meus sentimentos para coisas mais práticas.

SOU UMA PERSONAGEM DOS SIMS

Uma das coisas mais importantes que eu aprendi na terapia é prestar atenção à qualidade das minhas rotinas. O que é que tenho andado a comer? Quantas horas dormi? E exercício físico? Tudo isto está conectado com a minha disposição e, depois de alguma resistência, tenho sido capaz de ter uma rotina saudável que me ajuda a prevenir maus momentos extremos. Eu imagino-me como uma personagem dos SIMS, com a barra vertical das necessidades básicas – como comer, dormir, limpezas, até diversão – e eu tenho de estar sempre atenta a elas, com o objetivo de as ter sempre verdes e cheias.

Talvez isto não seja a vida mais entusiasmante para uma jovem adulta – como a Sylvia Plath escreveu no início do Bell Jar, “Era suposto eu estar a ter a viver os melhores momentos da minha vida”. Eu tenho a certeza que muitos de nós nos conseguimos identificar com isto. Mas enquanto essa opção não está disponível para mim neste momento, eu sinto-me bem com passar o tempo a cuidar de mim mesma. Desde cozinhar a lavar a loiça, cuidar do meu corpo e ambiente são atos de auto-cuidado.

DÁ-LHE UM NOME

Outra coisa que eu aprendi com mindfulness é esta ideia de “não-identificação” – “Eu não sou a minha depressão”. Por outras palavras, não-identificação significa que eu posso tornar-me mais crítica dos meus próprios sentimentos e pensamentos em vez de me definir por eles. Eles estão simplesmente a acontecer – então deixa-os acontecer. Em vez de pensar nos pensamentos maus outra e outra vez, devo distanciar-me, visualizá-los como algo fora de mim e dar um nome a este fenómeno (aqui é quando meditação e todas as mindfulness apps ajudam, mas eu ainda estou a tentar master isso).

Também percebi que treinar “não-identificação” pode ser algo quase intuitivo para algumas pessoas, já que depressão é algo que parece fora de nós. Eu apercebi-me disso no outro dia quando uma colega minha me explicou que tinha dado um nome aos momentos maus dela, para quando o namorado lhe perguntasse o que se passava não ter de listar todos os sintomas e pensamentos. No secundário, também fiz algo semelhante – chamava a estes estados de espírito “bicicleta com patins”, que é um nome sem sentido, como aqueles dias maus que tinha.

TODAS AS COISAS MARAVILHOSAS

Há uma peça chamada “Todas as coisas maravilhosas”, escrita por Duncan Macmillan, que conta a história de uma criança que começa a escrever uma lista de todas as coisas maravilhosas neste mundo para a sua mãe que se tentou suicidar. Eu fui ver uma interpretação desta peça pelo Ivo Canelas, que me motivou a começar a minha lista de coisas maravilhosas:

Mas esta ideia de fazer uma lista já me tinha ocorrido antes, depois de uma conversa com uma colega que me deu a conhecer o conceito de “lista de gratidão”. Naquela altura, eu achava que listas de gratidão eram uma “maneira distorcida de lidar com o vazio e insignificância da vida”. Mas depois a minha colega explicou-me que era acerca de reconhecer e apreciar não só as coisas grandes – como uma promoção ou uma viagem – mas também as coisas pequenas – uma conversa, uma refeição, um dia solarengo. Achei que poderia ajudar encontrar beleza numa vida que não me entusiasmava naquele momento. Nesse dia escrevi:

Eu não continuei a escrever acerca das três coisas que estava grata no meu diário, mas dizia-as em voz alta a quem estivesse comigo (e agora escrevo-as na minha agenda todos os dias).

DOCUMENTAR

Isto traz-me ao meu próximo ponto: documentar. Tenho mantido o hábito de escrever em diários nos últimos sete anos, por isso foi fácil para mim seguir o conselho da minha psicóloga de escrever sobre os meus dias e pensamentos. Ao que agora é comum chamar-se journaling, a ideia é menos sobre entender os meus sentimentos e mais acerca de diminuir a importância deles. Ter um diário também me dá a oportunidade de ler coisas que escrevi há meses e anos atrás (agora de um lugar melhor), o que torna o diário uma prova física que as coisas tornam-se melhores (e é também uma boa fonte de ideias para escrita).

SE FOSSE UM AMIGO A DIZER-TE TODAS ESSAS COISAS MÁS

Por último, o grande empurrão para ultrapassar a depressão e encontrar motivação para cuidar de mim mesma veio de uma frase que ouvi durante uma consulta. “Se fosse uma amiga tua a dizer-te todas as coisas más que tu repetes dentro da tua cabeça, o que é que tu farias?”. “Eu pararia de falar com ela – quem é que ela pensa que é para me dizer isso?”. Ah ah! – se eu não deixaria ninguém falar-me mal, considerando isso uma falta de respeito e amizade, porque é que eu abria uma exceção a mim mesma?

Eu também aprendi que depressão me levava a ter pensamentos desnecessários que continuavam a alimentar o estado depressivo em que estava. No meu caso, eu pensava muito acerca do meu sonho de sempre de me tornar jornalista, um sonho que eu alimentava desde os doze anos, que desapareceu durante a minha depressão. “Eu nunca vou ser jornalista”, eu repetia, até ao dia em que a minha psicóloga tornou claro que, a não ser que eu tivesse uma bola de cristal, eu não podia agarrar-me a esta ideia negativa – de novo, o conselho de ser mais crítica em relação aos meus pensamentos.

Recentemente, eu voltei a esta ideia depois de ouvir uma entrevista no podcast da Madeleine Dore com a Clare Bowditch, em que a Clare explica que quando passou por um período difícil quando era adolescente, prometeu a si mesma que escreveria um livro quando fizesse quarenta anos:

“Ajudou-me, naquela noite, dar o salto para a frente e imaginar-me com aquela idade, aos quarenta. Imaginar que, por um segundo, as coisas tinham resultado. Que eu tinha vivido. Que talvez tivesse até uma família, e uma casa, e um cão”.

Assim, durante o meu tratamento, agarrei-me a esta imagem imaginária de uma Mariana com trinta anos que, sabe-se lá como, tinha conquistado os seus sonhos.

CONCLUSÃO

Como o Andrew Solomon escreveu: “Quando estás deprimido, tu não pensas que puseste um véu cinzento e que estás a ver o mundo através do nevoeiro da má disposição. Tu achas que o véu te foi retirado, o véu da felicidade, e que agora estás a ver verdadeiramente”.

Todas estas “ferramentas” ajudaram-me a ver outro tipo de verdade que, eventualmente, me ajudaram a entender as razões para a minha depressão, que depois ultrapassei. É óbvio que não há uma solução “única” no que toca a saúde mental. Talvez meditação tivesse resultado para a Sylvia Plath e a Virginia Woolf, ou talvez elas tivessem precisado de outros tratamentos – mas eu gosto de pensar que elas teriam encontrado alguma coisa.


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