Estas férias de inverno, eu li um livro intitulado “Comunicação Não-Violenta”, escrito por um psicólogo chamado Marshall Rosenberg. No livro, ele argumenta que por trás de cada discussão existem necessidades que não estão a ser satisfeitas, e que nós ficaríamos muito mais felizes se lidássemos com elas e tentássemos satisfazê-las. Ele escreve: “Pratica traduzir cada julgamento numa necessidade por satisfazer”. Por exemplo, isto traduz-se em algo como mudar o discurso de “Estás sempre atrasado!” para “Eu fico furiosa porque eu gostava que estivesses comigo mais vezes do que estás”.

Eu resolvi aplicar esta nova ferramenta com o meu melhor-amigo-tornado-namorado-tornado-ex-agora-melhor-amigo. Nós andávamos a discutir muito – porque a sério, passar por melhor-amigo-tornado-namorado-tornado-ex-agora-melhor-amigo não é tarefa fácil. Eu escrevi num papel as minhas necessidades: “Quando nós discutimos, eu sinto-me irritada porque eu tenho a necessidade de me divertir. Estarias disposto a levar-nos menos a sério?”. E, enquanto fazia este exercício, apercebi-me também das necessidades dele: lembrei-me de todas as vezes em que ele simplesmente me pedia para o ouvir, e como eu lhe respondia com soluções, e, de seguida, com planos de ação, para o aconselhar e corrigir. Mas como o Rosenberg escreveu “O racional bloqueia empatia”. Finalmente, eu entendi que por trás das palavras dele, com as quais podia até não concordar, estavam as necessidades de conexão e aceitação. Eu não tinha de ser soft ou dura – só tinha de ver para além das palavras dele, e entender quais eram as necessidades e pedidos que eu estava disposta a satisfazer.

E DEPOIS EU OLHEI PARA MIM MESMA

Uns dias depois de acabar de ler o livro, fui almoçar com alguns amigos de infância. Há três anos a viver em Copenhaga, voltar a Lisboa torna-se cada vez menos uma experiência linear e familiar – em Portugal, estou tão distante da minha “vida normal” que tenho todo o tempo do mundo para simplesmente pensar (e depois pensar no que ando a pensar).

Quando eu saí de ao pé dos meus amigos, apercebi-me que me sentia mais vazia do que quando cheguei ao restaurante. Esta não era a primeira vez que isto me acontecia; no entanto, até ali, eu, racionalmente, culpava o tema de conversa, ter acordado num dia mau ou pensar demasiado… Ia aumentando ou diminuindo este sentimento de acordo com os meus argumentos racionais. No entanto, naquele dia, eu perguntei a mim mesma: “Se ficas a sentir-te assim, porque é que continuas a vê-los?”. E, para isto, eu não tinha nenhuma resposta racional.

Então, recorri ao Rosenberg – “Qual é a necessidade que não está a ser satisfeita aqui que me faz sentir isto?”

Ah! A necessidade de conexão – se eu parasse de estar com estes amigos, isso significaria que tinha de enfrentar o facto de que não tenho amizades profundas. Certamente não as tinha feito durante estes três últimos anos fora e tinha medo de admitir que nos últimos anos perdi a capacidade que construir novas amizades. E eu precisava disso, de estar com pessoas que significavam algo para mim, ter “momentos infinito” ou, pelo menos, pessoas com quem os pudesse ter. Senão, o quão cinzenta era a minha vida?

QUANDO TU COMPRAS UM CARRO BRANCO, SÓ VÊS CARROS BRANCOS

Foi difícil admitir para mim mesma que esta era a situação atual, mas, assim que o fiz, comecei a ver isto em todo o lado. Eu não sei se estava a sofrer de frequency bias (por exemplo, quando tu compras um carro branco, só vês carros brancos) mas, no mesmo mês, em três encontros com três amigos diferentes, todos eles falaram de como têm os mesmos sentimentos e pensamentos que eu.

Isto foi uma surpresa para mim. Mas, claro, estas conversas só tiveram lugar porque eu permiti a mim mesma ser vulnerável com os meus amigos. Por outras palavras, fazer saber que me importo com eles, e abrir-me acerca dos meus problemas.

DE QUALQUER MANEIRA, NÃO TENS O DIREITO DE OS MANTER ÀS ESCURAS

Ao reconectar-me com a necessidade de conexão, ganhei amizades melhores, como o Rosenberg previu. Mas nada disto era novo para mim. As vantagens de ser vulnerável já tinham sido descritas por mim num diário do 10º ano. Como a Youtuber Nataly Néri disse num dos seus vídeos, às vezes as respostas que procuramos já nos foram dadas por nós mesmos noutra altura da nossa vida. Ela explica:

“E o que eu recebi foram tapas na cara de mim mesma há dez anos atrás que parecia que sabia mais sobre a vida do que eu agora, ou talvez não tinha tanta coisa para lidar e conseguia enxergar o óbvio. (…) essa visão pura de uma adolescente de 14 anos me ajudou a entender o que realmente importa. (…) eu estava aos 24 anos a procurar uma série de respostas que aos 16 eu já tinha.”

Tantas vezes, eu encontrei-me com amigos e pensei “Será que eles querem estar mesmo comigo?”, “Será que eles querem mesmo saber ou estão só a ser simpáticos?” (e, consequente, escolher fechar-me pelo risco de ser rejeitada e magoada). Mas este tipo de questões nem sequer deviam ser tema de conversa. Como uma amiga me disse no 10º ano:

“Tu não tens o direito de privar alguém de saber que tu te preocupas com eles. Não és tu quem decide se eles querem saber de ti ou não”.

Esta chamada de atenção para ser vulnerável (para o benefício da outra pessoa e o meu também) ainda é válida hoje em dia. Hoje sigo este conselho mais uma vez:

Por isso, para a amiga que me deu a melhor ceia de natal da minha vida, para o amigo que ganhei depois de lhe contar sobre as traduções brasileiras das equipas de Hogwarts (como “lufa-lufa”), para a amiga que costumava assoar-se no banho (como eu fazia), e para a amiga que aos 15 anos já era sábia o suficiente para me dar o conselho acima descrito – se estiveres a ler isto, reach out.


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