Todas as semanas, eu e um amigo passamos por uma espécie de crise acerca das nossas agendas. Nós temos aulas, e cadeiras extras, e trabalhamos, e temos de ler imenso para a universidade, mas também queremos ler por prazer, fazer exercício, comer saudável, planear o semestre fora, trabalhar nos nossos próprios projetos (como este), tirar 10 minutos todos os dias para meditar para lidar com tudo isto enquanto encontramos tempo para sermos sociais e descansar, aprender novas línguas e viajar – e é Inverno agora (na Dinamarca) por isso a falta de sol faz com que fiquemos exaustos depois das cinco. E toda esta conversa acontece normalmente a um domingo à noite, enquanto eu ressinto o facto de ser o fim da semana e eles ressente o início da semana que aí vem (a tale as old as time).

Como é que podemos conquistar todos os nosso objetivos se temos tudo isto no calendário? E o que começa com meros 20 minutos de planeamento acaba numa crise existencial sobre o tipo de vida que estamos a viver. Todas as semanas, de forma alternada, asseguramos um ao outro que está tudo bem, que só precisamos de nos focar e permitir tempo para descansar e “Roma não foi construída num dia, sabes?”

A METÁFORA DOS QUATRO BICOS DO FOGÃO

No domingo passado, o mesmo aconteceu. Eu não pensei muito nisso até chegar ao fim do meu trajeto para casa a ouvir o podcast da Madeleine Dore, em que ela diz:

“No livro “Kookaburra”, David Sedaris relembra uma conversa que teve no carro quando um amigo pediu aos passageiros para imaginarem um fogão com quatro bicos: o primeiro bico representa a família, o segundo os amigos, o terceiro a saúde e o quarto o trabalho. A essência da teoria dos quatro bicos é que de forma a teres sucesso numa área particular da tua vida, tens de desligar um bico do fogão – de forma a teres ainda mais sucesso, tens de desligar dois”.

Ela depois questionou esta metáfora e explicou que talvez a resposta seja menos acerca de desligar alguns dos bicos e mais acerca de ajustar as expectativas acerca do quão intensamente cada um tem de arder.

Eu achei isso brilhante e fez-me pensar que seria bom relembrar-me disso da próxima vez que me encontrasse com o meu amigo para fazer o plano da semana – isso e algumas outras coisas que acabamos por esquecer semana após semana. Mas melhor do que lembrar isto tudo é escrevê-lo – querido amigo, aqui está:

Em primeiro lugar, vamos não nos esquecer dos nosso defeitos, ok?

Geralmente, as preocupações do meu amigo giram em torno de querer atingir todos os seus objetivos de uma só vez, enquanto o meu é sobre como planear as tarefas que precisam de ser feitas para este projeto. Embora os problemas possam ser diferentes, existe uma crença que é inerente aos dois: temos o nosso valor associado à nossa produtividade. Por outras palavras, sentimo-nos bem quando lemos 200 páginas para a escola e ainda conseguimos ler um livro de ficção. Menos que isso e “eu falhei na semana 7” (na Dinamarca, dividimos o tempo em semanas – eu sei, é estranho).

Mas, como a Madeleine Dore disse na entrevista que tive com ela: “Tu não precisas de um projeto ou de ser produtivo a toda a hora para teres valor enquanto ser humano, por isso pensa mesmo no que queres fazer contigo mesmo.”

Eu suponho que esta ideia do que me torna um ser humano com valor tem estado na minha mente nos últimos tempos. Escrevi no meu diário há alguns dias:

“A verdade é que tenho a minha identidade e valor reservados apenas às coisas que conquistei. No papel, pareço interessante. Sabes, sou criativa e leio livros numa cidade que mal lê, e tenho um projeto, escrevo e vou para o Brasil… Mas essa valorização só existe porque há um objeto físico que carrego (um livro) e um produto que estou a criar (o meu projeto) e, finalmente, a ideia de que alguém que vai ao Brasil deve ser aventureiro. Mas e se eu não tivesse nada disso? Se eu não lesse ou escrevesse e nem sequer tivesse essa necessidade, nem quisesse viajar para outro país? E se eu nunca tivesse saído de Lisboa? Será que ainda gostaria de mim?”.

Isto ainda é um trabalho em andamento, mas posso concluir que todos nós somos mais do que o número de páginas ou o número de vezes que fomos correr numa dada semana, e um pouco de auto-compaixão nunca magoou ninguém.

Em segundo lugar, abordamos a nossa lista de “problemas” (e eat the frog)

Escrevi isto há alguns meses em resposta a uma amiga que estava a passar por um período ocupado em muitas áreas da sua vida e estava com problemas em entender se devia puxar mais por ela mesma ou descansar:

“Hoje em dia, começo por listar todas as minhas preocupações. O próximo passo é tentar acabar com essas preocupações. Por exemplo, se estou preocupada em ler algo para a escola, em vez de pensar “bem, eu não quero fazê-lo, mas está a stressar-me o facto de poder ficar para trás na minha lista de leitura”, coloco meia hora na minha agenda apenas para ler para a escola. É só meia hora, mas é melhor do que nada (tentando evitar a mentalidade de “tudo ou nada”). Isso também me impede de ficar confusa e perder tempo a tentar decidir se devo ler ou descansar. Para além disso, considero um ato de autocuidado tentar “eliminar” as coisas que me chateiam. Por fim – e novamente, esta é uma maneira de evitar o desconforto da preocupação – eu tento “eat the frog” (comer o sapo) sempre que posso. Digo para mim mesma “ok, já chega de merdas” – isto é um pouco parvo, mas ajuda-me a fazer o que é necessário ser feito antes de relaxar.”

Eu e o meu amigo achamos útil todas as semanas criar uma lista de todas as tarefas que queremos fazer. No final da semana, deitamos a lista fora e criamos uma nova (esta foi uma ideia que tirei do Life Coach School podcast). Depois, destacamos as tarefas que mais nos preocupam para prioritizar e agir de acordo com elas.

Terceiro, só fazemos no máximo três objetivos de cada vez, ?

Mas esta lista de problemas existe em paralelo com as nossas resoluções de 2020 – e tanto um como o outro temos muitas! Mas, se decidirmos trabalhar em dez objetivos ao mesmo tempo, ficamos saturados. Para além disso, precisariamos de dividir a nossa energia em dez, o que significa que iria demorar mais tempo para alcançar os resultados desejados. Portanto, é melhor concentrarmo-nos num número menor de objetivos.

Esta constatação só me ocorreu este ano, desde que uso o caderno de planeamento semanal da Muchelle B, que só me permite concentrar em três metas por trimestre, para que eu possa obter melhores resultados e implementar uma mudança de cada vez. Outra coisa que tem funcionado bem este ano – que também faz parte deste workbook – é anotar os meus três objetivos e, no final de cada semana, avaliar se estou a segui-los. É uma boa maneira de ter noção dos meus dias!

Por fim, aos domingos, o que é que gostavas de fazer?

Num destes domingos, o meu amigo ligou-me quando eu ainda estava na cama e perguntou-me: “O que é que gostavas de fazer hoje?”. Foi uma boa pergunta para me lembrar que a escola e o trabalho só acontecem durante a semana e, na verdade, eu sou livre aos fins-de-semana para fazer algo diferente para além de gastar o meu orçamento em cappuccinos e brownies enquanto completo a minha lista de tarefas. “Gostava de ir à praia”. Estava um dia frio e ventoso, mas ver o mar deixa-me sempre mais feliz. De facto, quando voltei à terapia há um ano, um dos primeiros exercícios que tive que implementar foi encontrar uma hora no meu dia para fazer uma das cinco atividades que mais ou menos me divertiam na altura (acho que eram, por ordem: ir à praia, escrever, ler, dançar e editar vídeos).

Hoje em dia, a lista é outra, e eu aprecio a vida de uma maneira tão diferente que me vejo às vezes a faltar às aulas só para ficar a ler em cafés. Mas isso só acontece quando o meu cérebro diz “Podemos, por favor, desfrutar de algo maravilhoso hoje?”. Outras vezes, porém, é mais difícil lembrar-me de planear algum tempo para fazer nada, especialmente quando nos tornamos tão obcecados em ser produtivos.

Seria bom incluir nos nossos horários algum tempo para não fazer nada – talvez domingo seja esse dia para mim e para o meu amigo. Como sugere a técnica do Pomodoro – fazer uma pausa de 7 minutos após 25 minutos de trabalho – que estamos sempre a tentar implementar talvez devêssemos também “Pomodoro” as nossas semanas.


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Obrigada por teres lido até ao fim! Inspirada pela primeira entrevista deste projeto com a Madeleine Dore, preparei um pequeno e-book grátis sobre como começar um projeto. Se gostavas de ter acesso a este e-book e às newsletters, subscreve aqui:

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