Teresa Arega é artista freelancer – e neste termo inclui-se ilustração, pintura e storytelling – e criadora do podcast Varicela, em que ela conversa com amigos, também eles artistas, sobre criatividade e outros temas.

O DEPOIS DA LICENCIATURA

A primeira pergunta é um cliché: porquê pintura?

Eu sempre desenhei como uma criança normal e ir para Artes no secundário também não foi um momento muito sério, eu gostava de quase todas as específicas e acabei nessa área. Eu tive professores excelentes no secundário, e aí é que comecei a pensar que poderia fazer algo em artes. Às vezes é mais acerca de veres pessoas a fazê-lo para perceberes que é uma hipótese possível. Quando entrei em Pintura no Porto foi mais uma coisa natural, fez sentido como o próximo passo a tomar.

E como foi o “depois da licenciatura”?

Eu saí da faculdade em Julho de 2019, por isso ainda nem fez um ano, mas tem sido fixe. Não estava à espera que fosse tão fixe, contava até com ter uma “meia” crise, como vi o meu namorado ter enquanto procurava trabalho. Isso não tive, mas tive outras coisas, como perceber que passo muito tempo sozinha, porque é essa a experiência de freelancing. A faculdade valeu-me muito pelas pessoas e pelas conversas, por isso foi um choque quando isso acabou.

Como é que te tornaste freelancer?

No secundário e na faculdade já tinha feito trabalhos para fora, por isso não foi muito difícil. Logo depois da faculdade, trabalhei como art director para um livro-álbum de um amigo meu, e isso ocupou-me meses. Entretanto outros trabalhos se seguiram e, quando dei por mim, estava a trabalhar por conta própria. Infelizmente, na universidade não nos dão bases de marketing, comercialização de trabalhos e finanças, por isso é algo que temos de descobrir sozinhos.

Para mim, o mundo do freelancer parece quase místico.

É bué. Eu estava a falar com uma amiga sobre isso, vivemos na incerteza das coisas no freelancing. Mas, felizmente, eu estou numa posição de privilégio, porque nesta fase inicial estou em casa dos meus pais, enquanto tento entender bem como as coisas andam. Também ajuda ter amigos com anos de experiência em freelancing.

SOBRE O PODCAST VARICELA

O que é criatividade para ti e porque é que este conceito é tão importante no teu podcast?

A criatividade está inerente a todas as pessoas, e se não és criativo é porque não sabes ainda que és. É importante porque eu queria desmistificar e quebrar certos estigmas e preconceitos em relação ao mundo das artes. Eu sempre lutei contra isso… A culpa não é tanto dos estudantes, mas dos artistas, que vão impondo barreiras de comunicação – torna-se tudo hermético. Eu nunca senti que houvesse comunicação dentro e fora das faculdades e museus. Eu ia a uma exposição e a audiência era sempre a mesma, o que me levou a pensar “Quem é que eu quero que veja o meu trabalho?”. E não eram só aquelas pessoas. O podcast surgiu como um meio de lutar contra isso e dar uma plataforma a criativos que não a têm.

Portanto, retirar o elitismo das artes, e mostrar que todos podem fazer parte desse mundo.

Eu tenho esta teoria do rei vai nu… Eu acredito que as pessoas têm uma palavra a dizer e se soubessem disso, talvez os artistas dos museus não fossem sempre os mesmos.

O podcast é sobre desmistificar mitos, como por exemplo “quem corre por gosto não cansa” ou o mito do artista sofrido.

Como foi o processo de brainstorming para execução?

No último ano de universidade, eu lembro-me de falar com o meu namorado sobre criar alguma plataforma em que eu fosse a curadora do conteúdo. Enervava-me ver sempre as mesmas pessoas… No começo, eu pensei em criar uma revista, cinco edições com cinco artistas que mostrasse trabalhos, com ilustrações e perguntas… Mas eu queria pagar ao pessoal – e aí é que entendi que ia ser complicado. Então desisti dessa ideia. Mas, no verão passado, eu pensei “vou só fazer um podcast”. Então fui buscar o microfone e no dia seguinte gravei. Não houve nenhum grito do ipiranga ou assim! Depois fiz uma lista com os amigos que queria entrevistar, porque a ideia do podcast é ser uma conversa informal, sobre assuntos gerais que nos afetam enquanto artistas.

COMO TE TORNARES UM ARTISTA

Eu apercebi-me ao longo destes anos fora que ganhei um certo ressentimento em relação ao nosso país devido à falta de boas oportunidades. Partilhas do mesmo sentimento?

Eu conheço a Dinamarca. Conheço a cultura…

E os três anos sabáticos que eles fazem antes da universidade…

Hum, hum…! Entendo que possa ser frustrante perceber o quão mais fácil as coisas são lá fora, mas sabe bem conquistá-las cá. Acho que faz sentido dar uma oportunidade aos portugueses, que partilham identidade cultural contigo, a conhecerem o teu trabalho. A maioria das vezes isso acontece quando o teu trabalho já é reconhecido lá fora, infelizmente, então é difícil quebrar esse ciclo de ressentimento.

Um dos meus lemas vem de um livro do Adam J. Kurtz que é “Things are what you make of them” (As coisas são o que fazes delas), e em Portugal só podes viver com este mantra – a não ser que tenhas dinheiro para mais.

Só podes pegar naquilo que tens aqui e fazer algo; custa, mas é possível. Na Dinamarca, se queres fazer pão para sempre* eles dizem-te “força nisso!”. Tu já cresces sabendo que é só trabalhar e consegues, enquanto aqui a possibilidade de falhares é constante, e, por isso ser tão desmoralizante, custa mais.

Que conselhos darias a alguém que quer ganhar a vida enquanto artista?

Se eu tivesse que dar um conselho à Teresa do passado seria: “Não te queixes, não inventes desculpas. Não uses o que está a correr mal para não fazeres o que devias estar a fazer”. Às vezes, no inverno, tinha de trabalhar de cachecol e luvas, e isso afetava-me. É fácil esconderes-te atrás deste género de coisas, porque é difícil não ficar zangado com falta de condições.

Por isso o meu conselho é: simplesmente faz, e pensa “Se consigo fazer coisas incríveis nestas condições, imagina quando estas forem melhores”.

Outra coisa que me ajudou foi ler ficção ou fantasia, pelo que fazem à minha imaginação. Ler é bom para visualizar. Também via entrevistas a artistas, faladas ou escritas, para saber mais sobre os seus processos criativos. Há uma entrevista com a Lourdes Castro que me marcou bastante.

E o que dirias a jovens que foram condicionados com a ideia que seguir artes não lhes dará um bom emprego no futuro?

Eu já tentei pegar nisso e espero um dia trazer alguém ao podcast que possa falar sobre este tópico com mais experiência. É um fardo horrível quando os pais e a família não apoiam. Mas para os outros, o meu conselho é não levar o que vos dizem para o lado pessoal, ter muito sentido de humor e lutar.

Como é que tu abordas o teu processo criativo? De onde é que vêm as tuas ideias?

Para mim, resume-se a documentar.

Fotografias, vídeos, escrever… Anoto tudo, observo e tomo notas. Normalmente começa num caderno, onde posso rever coisas que escrevi há um ano e que, depois, acabo por considerar interessantes.

Repito a ideia mil vezes, escrevo no computador com fontes diferentes e, eventualmente, junto os pontos, e a coisa começa daí. Basicamente começa tudo de uma espécie de imagem fixa que gera algo. É como uma história – começas uma frase, um acontecimento e depois vais criando episódios até a história estar completa.

E como é que sabes que chegaste ao fim?

Este trabalho parte muito da tua intuição, e eu tento que a minha esteja sempre apurada. A minha intuição diz-me quando acabar. E vais desenvolvendo-a a pintar. Isto pode ser uma explicação rudimentar, mas, quando nascemos, a intuição já nos é inerente – à medida que crescemos, a nossa parte racional tenta sobrepôr-se e dominá-la. Claro que isso é útil, porque caso contrário, hoje em dia dirias as mesmas coisas parvas que dizias aos treze anos. Mas é importante não deixar que a parte intuitiva desapareça.

Outra coisa essencial é não te martirizares durante o processo. O resultado final pode ser fixe, mas é o processo e a intenção que fazem o projeto. Se algum erro acontece é porque tinha de acontecer, faz parte e não podia ter acontecido sem isso.

“Tinha de acontecer assim” – eu sempre odiei essa frase, mas agora já encaixei. Teve de ser assim porque não aconteceu de outra maneira e não podes voltar atrás no tempo. Mas continuando… Quais são os hábitos que te mantêm criativa?

Ter rotinas, é o mais útil de sempre. Não é necessário levantares-te às seis e meia para fazer journaling durante uma hora… Podes escrever durante dez minutos enquanto tomas café. É sobre manteres pequenas promessas a ti mesmo.

Sempre foste assim?

Conscientemente sim, mas foi sempre tentativa e erro. No secundário também acreditava na inspiração e isso também servia de desculpa para tornar tudo muito mais misterioso. Agora acredito em disciplina, em observar e tirar notas. É o que funciona para mim, lá está.

Qual é a parte mais difícil de ser artista?

A parte mais difícil foi e tem sido fazer amizade com o meu ego. Na área criativa em particular, o ego está 100% envolvido no nosso trabalho, por isso é fácil magoares-te e levares tudo a peito. É mesmo importante ter sentido de humor, sermos honestos e compreensivos.

*nota: isto não foi exagero da Teresa, como o jornal da minha universidade comprova: https://cbswire.dk/what-does-it-take-to-make-a-loaf-of-bread-from-scratch-lenas-finding-out/


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