Raida Rehouni trabalha remotamente como gestor de marketing para a Shut Up and Go, uma empresa fundada por dois Youtubers que encoraja pessoas a viajar pelo mundo e viver a vida que sempre quiseram.

O MOMENTO “OK, WHAT’S THE NEXT STEP?”

Qual foi o teu momento “Ok, qual é o próximo passo”?

Quando eu acabei o mestrado, tinha em mente tornar-me engenheiro de robótica e talvez mudar-me para Paris com um bom trabalho e um bom apartamento. Mas o que me fez mudar de ideias foi um estágio de seis meses que fiz em Tóquio num laboratório de robótica. Um dia, eu vi um post do Damon e da Jo à procura de um moderador para o grupo de Facebook do Shut Up and Go e decidi mandar-lhes um email. Não levei aquilo a sério – só queria fazer algo mais para além dos meus estudos, ter um hobby. Já era subscritor deles há seis anos, eu via os video durante o almoço e pensava “Quem me dera poder viajar tanto”. Uns dias depois, eu recebi uma mensagem do Nasir, que também trabalha com eles, sobre a candidatura.

Depois, terminei os meus estudos, que tinham sido a base da minha vida estes anos todos. Felizmente, tinha poupado bastante dinheiro durante o meu estágio, por isso planeei quatro meses sabáticos para viajar. Não sei, talvez estivesse à procura de algo que mudasse a minha vida porque eu estava meio convencido que o tipo de vida que eu queria não era aquele que eu estava a tentar ter. Viajei por França, Escócia e Espanha sozinho. E, entretanto, continuei a ser moderador do Shut Up and Go. Fiz isso durante alguns meses e apesar de não estar a ser pago para pensar na visão ou no futuro da empresa, eu tinha algumas ideias para memes para o Instagram e coisas assim. Em outubro de 2018, eu conheci a Jo em Paris e ela disse-me que estava a tentar criar uma posição de trabalho para mim. Eu sabia que em breve teria de encontrar um trabalho, e todas as as semanas a Jo falava comigo para saber se ainda estava livre. No final de janeiro, ela ofereceu-me um trabalho.

O que é o Shut Up and Go e qual é o teu trabalho?

O Shut Up and Go é uma empresa de travel media fundado pelo Damon e a Jo. A principal diferença entre este e outros blogs de viagem é que nós fazemos mais do que “10 melhores coisas para fazer em Los Angeles” – é um website onde podes encontrar relatos de experiências pessoas, coisas boas e más acerca de sítios e da vida. Shut Up and Go é o pequeno empurrão que precisas para viver a vida que tu queres.

Eu sou gestor de markerting, e sou responsável pelas vendas, como merchandising. Por exemplo, quando nós queremos lançar uma coleção, eu pesquiso qual é o melhor produto tendo em conta as necessidades da nossa audiência. Depois, eu tento encontrar o melhor custo de produção e qual é que deve ser o preço. Por outro lado, também tomo conta da publicidade e do conteúdo do website e do Instagram, para criar engajamento. Nós também temos marcas que querem trabalhar connosco, por isso sou também responsável pelas campanhas, fazer um plano de marketing, criar conteúdo e promovê-lo, e ter a certeza que a campanha corre bem para que as marcas tenham retorno de investimento.

Tu não fizeste um curso de Marketing, como é que aprendeste isso tudo?

Muita auto-aprendizagem. Eu leio muito e vejo muitos vídeos. Agora com a internet, tu consegues aprender tudo. 50% é isso e os outros 50% é o que a Jo me ensinou porque ela estudou gestão e é empreendedora – então ela ensinou-me muitas coisas. E acho que também tenho uma boa intuição no que toca a publicidade.

E quanto a engenharia? Tens saudades?

Tenho um pouco. Eu sei que não disse adeus, só pus em standby. Um dia eu gostava de juntar marketing com ciências robóticas e tudo o que aprendi – talvez um dia crie a minha própria empresa. Não sei.

TRABALHAR REMOTAMENTE COMO GESTOR DE MARKETING

Como é um dia de trabalho normal para ti?

Ok, para o meu trabalho, eu só preciso de três coisas: o meu computador, Wi-Fi e o meu cérebro. Eu não tenho de ir até ao escritório, e aí está logo uma grande diferença para um trabalho tradicional. Neste momento, eu estou em Los Angeles, por isso parte do meu dia é passada a escrever emails, enviar pitches, fazer chamadas com marcas para lhes apresentar o Shut Up and Go e perguntar se querem colaborar connosco. E depois aprendo imenso. Leio artigos e vejo vídeos em inglês – eu falo inglês no trabalho e não sou perfeito, tenho de continuar a melhorar. E depois tenho as partes mais criativas, como criar memes ou pensar em campanhas de publicidade.

Normalmente, tenho uma lista de tarefas, e todos os dias tento pelo menos fazer cinco coisas. Por exemplo, se hoje tiver dez coisas para fazer, dessas dez vou fazer cinco. Se tiver mais tempo ou energia faço o resto – se não, deixo para o dia seguinte. Mas no que toca a trabalhar remotamente, há muitas maneiras de te organizares, é só encontrar a que te parece melhor para ti.

Que desafios encontraste no início quando começaste a trabalhar remotamente?

Disciplina. Disciplina porque eu nunca fui organizado enquanto estudava. Fazia tudo à última da hora e estava sempre exausto depois dos exames. Por isso agora, tento ser consistente porque não tenho exames, só trabalho todos os dias. Uma das vantagens de ter um emprego tradicional é que não está associado à tua vida pessoal, portanto quando chegas a casa não é suposto trabalhares.

Quando trabalhas remotamente, é difícil porque ou estás em casa, a viajar ou a conhecer pessoas, por isso pensas “Ok, agora devia ir trabalhar ou tomar um café com um amigo?”.

Quantos países é que visitaste o ano passado? Tu viajas muito?

Hum, quando tu tens este tipo de vida, tu sentes-te culpado quando ficas muito tempo no mesmo sítio. É um sentimento estranho – “Eu consegui um trabalho remoto, não devia estar a viajar agora?”. No começo, eu viajava quase todas as semanas. Era divertido mas depois comecei a ficar cansado de andar com a bagagem de estação de comboio em estação de comboio. Por isso, de momento, eu estou a planear ficar um mês em cada sítio. Estive um mês em LA, agora vou para o México durante um mês e depois o Equador.

O ano passado, tu escreveste no Instagram “Vou tentar fazer algo significativo todos os meses”. Como é que isso correu?

Eu queria ser capaz de, no fim de cada mês, olhar para trás e ver diferenças entre o meu “velho eu” e “novo eu” em trinta dias.

Isso não é stressante?

Não, não – nada acontece se eu não o fizer. Eu só escolho atingir uma coisa que sempre quis fazer, sabes? Eu posso dizer “Ok, este mês quero aprender a cantar”. No final desse mês, a minha voz soaria melhor. Este mês, estou a tirar aulas de boxe e estou a adorar, é uma boa maneira de desanuviar. Sou capaz de continuar a fazê-lo no México. Tenho 26 anos e estou bastante contente com o que já atingi. E não vou parar.

Às vezes eu penso se o meu eu com 15 anos estaria orgulhoso da vida que eu levo agora. É uma boa maneira de ver se escolheste o caminho certo.

Sim, quer dizer, quando estás perdido, deves simplesmente ir para um café, pegar em papel e caneta, e escrever o que te faz feliz. “O que é que eu quero?”.

Aliás, ainda mais importante do que saber o que tu queres é saber o que não queres.

Portanto, escreve uma lista das coisas que queres ou uma lista do que não queres – como falta de tempo ou pessoas tóxicas.

COMO TRABALHAR REMOTAMENTE

Quais são os teus conselhos para arranjar um emprego remoto?

Eu estou a pensar naquilo que eu fiz, mas tenho que dizer que a melhor coisa é não ter medo de dar um tiro no escuro.

Muitas pessoas pensam “Nunca vai resultar”, mas quer dizer… Eu estou em LA agora com um emprego remoto, com salário, e vou para o México na próxima semana porque mandei um mail. Um email.

Eu tento relembrar-me disso todos os dias porque, se eu não tivesse mandado aquele email, eu teria uma vida completamente diferente. O LinkedIn é uma boa plataforma para encontrar trabalho remoto, basta pôr na caixa de pesquisa. Procura posições como manager de redes sociais ou de comunidade. Eu acho que essa é uma boa maneira de começar. E quando fizeres isso, não mandes um mail para um contacto geral. Tenta encontrar uma pessoa em particular e tem a certeza que o email chega à conta deles. Nós no Shut Up and Go acabámos de lançar um guia sobre como arranjar um trabalho assim.

E que tipo de conselhos tens para pessoas que querem viajar pelo mundo? Para além de “shut up and go” (cala-te e vai)?

Okay, então, eu acho que o primeiro passo é convenceres-te de que é possível. Pensa nisso mais como uma ambição do que propriamente como um sonho. Faz disso um objetivo concreto porque tens a sorte de viver numa era em que podes fazer tudo graças à tecnologia. Se quiseres sair deste ciclo de co-dependência entre tempo e dinheiro e estares preso num escritório, tens de encontrar um emprego remoto. Por isso manda muitos emails, quantos forem precisos para arranjares um trabalgo. Se não resultar é porque os teus emails são maus. Sê realista acerca disso e melhora-os. Outra maneira é criares o teu próprio emprego – isso é mais fácil quando és designer ou criador de conteúdos.

Se pudesses voltar atrás no tempo e dar um conselho a ti mesmo antes de entrares na universidade, o que dirias?

É difícil porque eu sinto que fiz as coisas certas, estou aqui. Eu diria para continuar, isso é certo. Não fiz nada que me arrependesse, o que é ótimo. Depois do secundário, eu entrei em medicina, mas desisti porque não gostava do ensino em França. Nessa altura eu pensei “talvez esteja a cometer um erro”. Por isso, eu voltaria atrás nesse momento para dizer “Não, estás a fazer a decisão certa, não te preocupes”.

É o sonho de todos os pais ter um médico na família. Como é que a tua família reagiu a isso?

Bem, a minha mãe passou-se porque eu fui o primeiro da minha família a entrar na faculdade. Eu venho de uma família que emigrou da Argélia, por isso eles estavam super orgulhosos de ter um engenheiro na família. Mas depois, voltei de Tóquio e disse-lhes “Eu quero trabalhar com Youtubers. Não, não, eu acho mesmo que isto é a decisão certa e, se não for, eu ainda tenho o meu diploma”. Mas eles confiaram em mim porque eu sempre levei a minha vida a sério. Tu tens de ser corajoso e enfrentar os teus medos, não deixar os medos das outras pessoas tomarem conta de ti.

Eu também não apresentei isto como algo que pudesse ser discutido. Eu cheguei e informei-os acerca da minha decisão. Eu paguei pelos meus próprios estudos, por isso não lhes devia nada – e, claro, isso fez a diferença. Disse-lhes: “Se vocês não entendem, vou só esperar até vocês aceitarem”. E agora eles veem-me em LA e acham que eu sou um sortudo.

Claro, parte é sorte, mas também tens de o merecer. Não é como se eu tivesse ficado sentado no sofá à espera que as coisas acontecessem.

Eu queria perguntar-te uma coisa: tu não te sentes sozinho nas tuas viagens, às vezes?

Nunca aconteceu. Eu tenho bons amigos, suponho. Nós ligamos uns aos outros todas as semanas. Para além disso, eu gosto de viajar sozinho porque assim estou livre para fazer o que me apetece.

Mas e quando vês algo realmente bonito, como o pôr-do-sol, que é a tua cena, certo? Não gostavas de ter alguém com quem partilhar isso? É por isso que eu tenho medo de viajar sozinha.

Eu sou fã de pores-do-sol. Às vezes, eu vejo o pôr do sol sozinho e penso “Oh, quem me dera que estivesse aqui alguém, partilhar isto com os meus amigos e família”. Mas depois eu penso que podia ser pior não o ver, entendes? P

Por isso, há três casos – o que vejo o pôr-do-sol com alguém, o que vejo sozinho e o que não vejo nada. E acho que é melhor ver sozinho do que não ver nada.

Oh, eu adoro isso. Eu vou para o Brasil fazer um estágio em Setembro e vou levar isso comigo, a sério. Obrigada!


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