Mattia Chus é ilustrador, designer gráfico e pintor de murais em Copenhaga, e organizador dos workshops Sketchy Monday.

O MOMENTO “OK, WHAT’S THE NEXT STEP?”

Conta-me sobre o início da tua carreira como artista visual. O que te levou a isso?

Eu sempre gostei de desenhar, queria-me tornar um artista de banda desenhada. Quando tinha dezesseis anos, descobri o ilustrador Dave McKean, que desenhou as capas para os livros do The Sandman, do escritor Neil Gaiman, e foi assim que me apercebi que me queria tornar ilustrador.

Estive um ano numa academia de arte, mas não me adaptei ao ambiente, por isso fui trabalhar para poupar dinheiro para entrar numa escola particular de ilustração. Depois disso, trabalhei como colorista de banda desenhada para uma pequena editora italiana, mas não recebia muito. Continuei a trabalhar como ilustrador freelancer e, ao mesmo tempo, comecei a receber encomendas de retratos.

Mas foi na Dinamarca que as coisas começaram a acontecer de verdade – o meu estilo mudou e comecei a conhecer pessoas que tinham um trabalho a sério como ilustradoras, e que me deram muitos conselhos.

Tu tiveste algum momento “OK, qual é o próximo passo”?

Sim, eu tenho-os muitas vezes.

A sério?

Sim. Por exemplo, eu trabalho com meios diferentes, do digital à pintura a óleo e pintura de murais. Às vezes, a minha identidade como artista é um pouco confusa. Eu faço uma pintura e fico tipo “OK, qual é o próximo passo? Devo continuar a fazer este estilo ou mudar?”. Mas o maior momento foi provavelmente quando eu vim para a Dinamarca. Eu sabia que queria desenhar e pintar, mas não sabia como encontrar as pessoas certas, como encontrar emprego. Procurei sem sucesso, tentei encontrar algumas editoras de banda desenhada, mas não há muitas aqui. Eventualmente, acabei neste lugar, uma casa de cultura para jovens chamada Kraftwerket, onde agora tenho um estúdio. Houve uma pessoa que me apresentou à cena do graffiti aqui, e assim acabei por conhecer outros artistas, por isso foi o passo certo.

No ano passado, passei a trabalhar principalmente no meu caderno de desenho. Quis descobrir o que quero fazer e o que as pessoas gostam na minha arte, porque sinto que a minha identidade também está a ser definida pelo feedback das pessoas. Agora, estou mais focado em ilustração e fazer mais ilustrações digitais, porque recebi várias encomendas para isso.

O ano passado também me serviu para perceber que não conseguia usar todas as técnicas que aprendi na escola, precisava de escolher – o resultado foi voltar à ilustração “tradicional” e digital.

TRABALHAR COMO ARTISTA VISUAL

Como são as tuas rotinas de trabalho?

Eu gostava de ter uma – agora ainda tenho um emprego em paralelo, então, às vezes, pode ser confuso. Mas, geralmente, chego ao estúdio à tarde porque estou habituado a trabalhar à noite. Eu chego aqui, faço café, sento-me, faço algumas coisas para o Facebook, vejo os meus emails… Eu tento livrar-me das coisas do computador primeiro. Depois, esboço alguma coisa por meia hora – basta escolher uma foto do meu telemóvel e deixar-me ir. Eu acho que é bom começar com um género de aquecimento. Uma coisa que resulta para mim é começar a desenhar o que vejo, um objeto ou a imagem de um amigo que tenha no telemóvel. Depois de meia hora, começo a trabalhar.

Tu trabalhas por longos períodos de tempo?

Depende do prazo de entrega e do quão apertado estou. Agora está um pouco complicado, porque trabalho em turnos noutro trabalho que tenho.

Mas eu gosto de fazer pausas. Se estiveres a trabalhar nalguma pintura, faz uma pausa e vai olhar para outra coisa, porque podes estar a fazer alguma erro e perder a visão geral da obra. Eu gosto de trabalhar em duas ou três coisas ao mesmo tempo, do tipo “Ok, parar este trabalho, descansar dez minutos e depois começar a trabalhar noutra coisa por algumas horas”. Mas, às vezes, também é necessário focares-te por dez horas na mesma ilustração porque precisas mesmo de a terminar. É muito flexível, faz parte de ser freelancer.

Como é que obténs as tuas ideias?

A parte da ideação é sempre a mais difícil para mim. Ajuda-me olhar para o trabalho de outros artistas, filmes e jogos de computador – mesmo que não os jogue.

Envolve muito ver trabalhos de outras pessoas e acredito que, inconscientemente, isso entra no teu cérebro e manifesta-se quando precisas.

Também me tento informar sobre o que estou a desenhar, então faço muitos esboços enquanto leio páginas da Wikipedia. Gosto de enriquecer a ilustração com detalhes escondidos ou metafóricos relacionados com a história. Faço pelo menos mais dois ou três esboços mais definidos depois. Mesmo que eu goste do primeiro resultado, quero que o cliente tenha mais opções – e talvez o melhor acabe mesmo por ser o terceiro, não consigo prever.

E como é que consegues clientes?

É principalmente de boca em boca – pessoas que eu conheço ou conheci aleatoriamente a quem apresentei ao meu trabalho. Algumas vezes, vendi pinturas graças a uma galeria, e é assim que quero trabalhar, mas primeiro quero ter um portfólio mais sólido antes de começar a procurar galerias.

O que é um portfólio sólido, na tua opinião?

Estou a trabalhar para ter pelo menos dez pinturas no mesmo estilo para que galerias e clientes possam reconhecer o meu trabalho. Quero escolher uma boa galeria porque sinto que posso competir – quanto mais trabalho faço, melhor me torno. Estou neste tipo de limbo há alguns anos, em que preciso de ter um emprego de dia para pagar as minhas contas, mas também preciso de mais tempo e de uma vida social, porque isso inspira-me. Por exemplo, tive outro folheto para desenhar para um evento de dança e fiquei logo muito inspirado porque tive num evento de dança na noite anterior. Enviei o esboço e os clientes ficaram tipo “Uau, é isto!”.

E qual é a parte mais difícil de ser artista?

Não sei, não há muitas coisas que me deixam frustrado. Claro, seria bom viajar mais e fazer arte noutros lugares, mas também não me importo com o dinheiro.

Não gosto quando as pessoas não valorizam o teu trabalho, como quando és convidado a fazer coisas de graça, mesmo que ser artista seja a minha paixão. Tu não pedes a um canalizador para arranjar um cano de graça.

Não sei, gosto da minha vida dessa maneira.

SOBRE O SKETCHY MONDAY

Conhecer pessoas é um hábito que melhora o teu trabalho artístico, certo?

Sim, isso é muito importante. É por isso que eu e os meus amigos criámos o Sketchy Monday, um workshop aberto onde as pessoas podem simplesmente chegar, sem pagar nada, sentarem-se numa mesa grande com outras pessoas e desenhar, tomar café e divertirem-se. O número de participantes depende, mas pode chegar a trinta pessoas.

Nós começamos o projeto com outro nome e noutro estúdio no verão de 2016. Durante as primeiras duas ou três semanas, éramos apenas dois amigos e eu. Mas, graças ao Facebook, o workshop começou a crescer lentamente. As pessoas viam os posts sobre o evento e apareceriam à porta. Nós ficávamos tipo “Como é que raio nos encontraste?”. Foi muito bom, portanto continuamos a fazê-lo. As Sketchy Mondays funcionam bem para algumas pessoas porque acaba por ser um compromisso.

É difícil organizar tudo uma vez por semana, mas tornou-se grande o suficiente para que eu agora recebesse ajuda e possa mesmo delegar algumas das tarefas para outras pessoas! Por exemplo, temos um acordo com uma padaria local que nos dá sobras de pão e bolos, por isso temos que ir até lá, preparar as mesas, fazer café … De certa forma, sou realmente apaixonado por estes workshops, mesmo que às vezes tenha sentimentos contraditórios e às vezes gostasse apenas de ser um visitante aleatório que se senta e desenha sem qualquer responsabilidade.

O que é que a Dinamarca te oferece que a Itália não oferece?

Este estúdio, para começar, que faz parte de uma casa cultural para jovens. O que mais gosto acerca de estar aqui é que, embora não falasse a língua, eu tinha ilustrações na minha mala para mostrar às pessoas e dizer: “Olá, sou ilustrador e estou à procura de um estúdio”. Nesta casa cultural, eles disseram: “Se estiveres disposto a fazer algum projeto como voluntário, como a Sketchy Monday, podes ficar”. E isso tu não tens em Itália. Aliás, no outro dia, tivemos uma visita de uma turma de estudantes de Bruxelas e eles ficaram surpreendidos com o espaço porque na Bélgica este conceito também não existe. Para além disso, se fores bom a escrever candidaturas, podes obter financiamento do governo dinamarquês.

Outra coisa que me mantém aqui é a rede de pessoas que não tinha na minha cidade natal em Itália.

A única coisa difícil é que agora tenho muitos clientes italianos, o que pode vir-se a tornar um problema porque na Dinamarca o custo de vida é bem mais alto. Tenho de começar a trabalhar para o mercado local e para um mercado mais internacional, como os Estados Unidos e o Reino Unido, ou então terei de pensar em voltar ou mudar-me para outro país.

COMO TE TORNARES UM ILUSTRADOR

Qual é o melhor conselho que já recebeste enquanto artista?

O primeiro que me vem à cabeça é: para de ser demasiado humilde com o teu trabalho. Esse é um bom conselho. Tens de ter orgulho daquilo que estás a vender! Outra coisa boa é encontrar um mentor. O meu é um artista espanhol chamado Malakkai e sempre que faço algo, mostro-lhe e ele dá-me a sua opinião. Ele é um exemplo para mim.

Além disso, se fores demasiado humilde, podes acabar por ser mal pago.

Sim. Aliás, podes ter como um lembrete que se o cliente tentar negociar um preço mais baixo, então significa que tens um bom preço. Se venderes algo e o cliente não parece preocupado com o preço, isso significa que é muito baixo.

A cena de seres artista é que por um período de tempo – que pode levar anos – a quantidade de dinheiro que fazes será menor do que aquilo que um canalizador ganha por hora, provavelmente.

Mas se fores consistente e continuares a produzir, o teu trabalho acabará por ser valorizado, tornar-te-ás conhecido e os teus preços subirão.

O que te ajuda a manter o foco?

Eu já tive outros empregos e não gostei. Eu gosto disto. E sei que posso ser um pouco desorganizado no que diz respeito aos meus próprios projetos pessoais, porque não tenho nenhum prazo de entrega. Mas, quando tenho uma encomenda, eu levo-a muito a sério. Às vezes até fico surpreendido com o quão profissional consigo ser.

Se tiver que acordar às seis da manhã para ir para o escritório, é uma coisa. Se eu tiver que acordar às quatro da manhã para pintar um mural por doze horas, fico feliz.

É uma paixão.

Sim, sempre foi. Quando comecei a pensar “quero tornar-se um artista de banda desenhada”, eu estava na escola primária. Os meus pais não se importaram muito e disseram: “Primeiro estudas, torna-te cientista, advogado, cirurgião” … Depois terminei o secundário e eles desistiram. Não sei o que me mantém neste mundo das artes – provavelmente é uma coisa interior. Prefiro não ter uma família e viver muito mal para o resto da vida, mas ser capaz de fazer alguma coisa nesta área. E eu sei que isso não vai acontecer porque tenho formação e sou bastante estruturado, então tenho a certeza que vou chegar a algum lado.

Se alguém te perguntasse “Como posso tornar-me um ilustrador?”, o que é que responderias?

Desenha muito. Conversa com pessoas que trabalham na área – editores, ilustradores, pessoas que fazem filmes, que trabalham em banda desenhada, jogos de computador… Tanto faz. Entende se a tua mentalidade é semelhante.

A maioria das coisas que aprendi foram fora da escola de ilustração, através de pessoas cujo ganha-pão é fazer ilustração.

Decide o que queres fazer, porque é um grande compromisso e não esperes trabalhar por algumas horas e fazer muito dinheiro com isso. Não, será muito pouco dinheiro com muito trabalho nos primeiros anos. Talvez com sorte comeces a ver os lucros disso, mas precisas de ser consistente.

Agora, sinto que estou num dos podcasts que eu oiço, como um em espanhol chamado “Artista 24/7”!

Eu gosto de saber sobre as experiências de outras pessoas, mas, é claro, todos acabam por dizer a mesma coisa: “Prepara-te para trabalhar no duro”.  Prepara-te para fazer contabilidade, contactos, redes sociais … Também te dizem que é bom poupar dinheiro por um ano para que possas viver das tuas poupanças por um tempo e focares-te na tua arte.

E que conselho darias ao teu “eu mais jovem”?

Provavelmente para desenhar mais.

Ainda mais?

Sim, porque definitivamente existem pessoas mais produtivas que eu. Também diria para ser menos auto-crítico e sair da minha cidade natal mais cedo. Eu mudei-me quando tinha quase 26 anos. Frequentei uma escola de ilustração lá, o que me ensinou muitas coisas boas, mas eu podia ter feito as coisas de maneira diferente. Podia ter-me mudado para uma cidade mais distante e ter uma vivência mais artística, em vez de estar sempre ligado à minha cidade natal.


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