Marta Vidal é uma jornalista freelancer, com reportagens publicadas em jornais como o The Guardian, Washington Post, Al Jazeera e Expresso, retratando histórias de lugares como Portugal, Bósnia, Jordânia e Cisjordânia.

O MOMENTO “OK, WHAT’S THE NEXT STEP?”

Como foi o início do teu percurso como jornalista?

Eu estudei jornalismo na Universidade de Lisboa, e quando acabei não queria mesmo ficar em Portugal – a ideia de ficar e fazer vários estágios não-remunerados até conseguir um trabalho deprimia-me. Então passei um ano a trabalhar com ONGs, uma delas em Sarajevo, uma organização que fazia pesquisa sobre direitos humanos. A organização tinha uma plataforma onde publicava artigos em inglês e em bósnio sobre direitos humanos e justiça social, o que me deu a oportunidade de começar a escrever e publicar os meus artigos em inglês. Depois, passei cinco meses na Palestina a fazer voluntariado com uma outra ONG que trabalhava com crianças. Juntei-me a um jornal local, sem fins lucrativos, que cobria questões relacionadas com a ocupação israelita e violações de direitos humanos na Cisjordânia, e acho que foi o que mais me ajudou a começar a trabalhar como jornalista freelancer. O editor do jornal, que na altura também trabalhava como correspondente para a Al Jazeera, encorajou-me a enviar propostas para jornais internacionais e partilhou contactos comigo. Depois disso ainda fiz um mestrado na Holanda e, quando acabei, mudei-me para a Jordânia, onde estou há um ano e pouco. A Jordânia está no centro do Médio Oriente, mas há muito poucos jornalistas lá, então eu senti que havia um vazio para preencher, histórias que não estavam a ser contadas.

Quando foste para a Palestina não tiveste medo? Como é que a tua família reagiu?

Eu acho que a minha família se foi habituando aos poucos. Não é propriamente perigoso para alguém como eu – branca, com passaporte europeu. É muito mais perigoso para quem vive lá e é alvo dos abusos do exército israelita. Só houve talvez uma ou duas situações em que eu me senti um pouco mais insegura, porque estive lá numa altura que ficou conhecida como a “intifada das facas”, com vários ataques de esfaqueamento. Na Cisjordânia o exército israelita acusava palestinianos de tentarem atacar com facas soldados e civis, e matava os suspeitos a tiro. Lembro-me que no mês em que cheguei os soldados acusaram uma mulher de mais de 60 anos de os tentar atacar, e mataram-na no checkpoint, a apenas alguns metros de onde vivia.

E porquê o Médio Oriente?

Eu sou do Porto e quando me mudei para Lisboa para estudar, uma das primeiras pessoas que eu conheci foi um refugiado palestiniano que tinha chegado a Portugal pouco antes.

De certa forma, estávamos os dois deslocados e tínhamos várias coisas em comum. Mas também me apercebi das coisas que não tínhamos em comum, como toda uma série de privilégios que tenho por ser portuguesa. Eu podia visitar a terra dos pais dele, ele como refugiado palestiniano não podia.

Eu podia circular livremente, ele não podia. Foi um encontro muito importante porque me fez ter mais consciência dos meus privilégios, de como são injustos.

E, ao mesmo tempo, acontecia a crise dos refugiados e o aumento da islamofobia na Europa. Assustava-me a forma como os discursos antissemitas e o ódio de há décadas atrás estavam a reaparecer, e a forma como árabes e muçulmanos eram representados como “o Outro”, e como uma ameaça. Eu queria desmistificar isso. Comecei a aprender árabe e descobri imensas palavras comuns em português, fiquei intrigada pela forma como a herança árabe está presente na língua portuguesa. Quando comecei a viajar pelo Médio Oriente, apercebi-me que há tantas coisas que temos em comum… É engraçado porque quando vivi na Holanda senti-me sempre estrangeira, mas no Médio Oriente tenho um estranho sentimento de pertença, sinto-me mais em casa em cidades como Beirute, Ramallah ou Amã do que na cidade holandesa onde vivi dois anos.

ROTINAS COMO FREELANCER

Como é que são as tuas rotinas de trabalho?

Depende muito do trabalho, porque como freelancer há semanas em que não tiro um dia sequer para mim, estou sempre a trabalhar porque tenho reportagens para entregar e prazos apertados. Outras semanas são muito mais relaxadas porque não tenho nenhuma encomenda de artigos, então é mais fazer pesquisa, ler notícias e livros para procurar inspiração e novas ideias para outras reportagens, e para aprofundar temas que me interessam. Eu não tenho propriamente um escritório, mas tento separar a casa do trabalho. Há sítios na Jordânia que eu uso quase como escritórios – bibliotecas ou cafés. Normalmente acordo cedo, às vezes tenho uma aula de árabe pela manhã, mas começo a trabalhar por volta das 9h e tento acabar e desligar o computador às 17h ou 18h.

É um trabalho solitário?

Normalmente trabalhas sozinha mas uma das coisas que eu gosto aqui é que as pessoas são mesmo muito simpáticas, é muito fácil fazer amigos. Por exemplo, há uma biblioteca onde eu costumo trabalhar, e já quase toda a gente lá me conhece. As pessoas vêm falar comigo, às vezes fazemos pausas e vamos tomar café. Também acho que parte um pouco de ti, de tentares conhecer outras pessoas, tentares arranjar outras formas de colaborar. Eu tenho feito colaborações com fotógrafos locais. É pena mas há mesmo poucos jordanos a trabalhar com a imprensa internacional.

E isso também acaba por te tornar uma jornalista melhor, não é? Porque estás a dar acesso aos locais de mostrarem as suas histórias.

Eu sinto-me desconfortável com o “jornalismo de paraquedas”, os jornalistas que vêm por uns dias, fazem as entrevistas e vão logo embora. Acho que é importante conhecer bem o contexto local, e quem melhor do que os jornalistas locais?

Por isso acho que a imprensa internacional deveria confiar mais e dar mais trabalho aos jornalistas que vivem nos países que estão a cobrir – são eles que falam a língua, que conhecem bem o contexto do país. Não me sinto muito confortável com o facto de haver tão poucos jornalistas jordanos a trabalhar com jornais internacionais. Mas acho importante ajudarmo-nos uns aos outros, porque eles têm o conhecimento local, os contactos, a língua. Ao mesmo tempo, os jornalistas internacionais podem ajudar com exposição e com contactos de editores para que mais jornalistas locais comecem a trabalhar com a imprensa internacional. No caso da Jordânia, onde a liberdade de expressão é limitada e os jornalistas locais correm mais riscos, os jornalistas internacionais têm mais facilidade em cobrir temas sensíveis porque estão mais protegidos e as consequências para eles não são tão graves – não podem ser presos, por exemplo, nem podem perder o emprego.

Como é que é mandar pitches para jornais?

É muito chato, acho que é o que eu mais odeio na profissão, porque, às vezes, os editores não estão interessados e nem sequer te respondem, então ficas muito tempo à espera. No início é normal que muitos dos pitches sejam rejeitados, mas tens de ser persistente e continuar. A melhor dica que te posso dar é: certifica-te que mandas para uma pessoa e não para um email geral. O mais eficaz é seres sucinta, dizeres em poucos parágrafos a ideia que tens mas de uma forma que chame a atenção do editor que estás a contactar. Vai direta ao assunto e incluí também exemplos de outros trabalhos que tenhas feito para que confiem em ti e no teu trabalho.

Qual foi a tua reportagem preferida de fazer até agora?

Isso é difícil de responder, mas posso dizer que fiquei muito feliz depois da reportagem sobre o genocídio Yazidi ter sido publicada pelo Fumaça. Na altura em que estava a fazer pesquisa não conseguia perceber porque é que não se tinha dada mais atenção ao genocídio e porque é que ainda não tinha sido reconhecido em Portugal.

Depois da reportagem ter sido publicada, a única deputada que respondeu aos meus pedidos de entrevista, a Maria Manuel Rola do Bloco de Esquerda, enviou-me um email a dizer que iam votar no parlamento uma proposta para reconhecer o genocídio.

A proposta foi aprovada por unanimidade e isso para mim foi uma vitória, porque se os estados não reconhecerem oficialmente o genocídio é difícil levar o caso dos yazidis a um tribunal internacional. Um dos objectivos da reportagem também era esse – chamar atenção para a importância do reconhecimento e para as promessas feitas a sobreviventes yazidis. Este reconhecimento pouco depois da reportagem ter sido publicada fez-me acreditar que o jornalismo vale mesmo a pena.

É a responsabilidade social que te move enquanto jornalista?

Por um lado sim. Acho que o jornalismo é a minha forma de me sentir ligada ao resto de mundo, e de sentir que o meu trabalho pode ser uma maneira de lutar por um mundo mais justo e mais solidário. Mas há razões bastante egoístas e pessoais, também. Por exemplo, quando comecei a fazer pesquisa sobre o genocídio Yazidi tive imensa dificuldade em lidar com as histórias que ouvi, tinha pesadelos. Mas o ato de escrever ajuda-me a lidar com as situações, e senti-me mais leve depois de ter acabado de escrever a reportagem. Faço-o para me sentir melhor, se partilhar o peso das histórias que carrego elas tornam-se mais leves.

E acho que também se relaciona de certa forma com questões relacionadas com privilégio e poder. Com o refugiado palestiniano que conheci, que era apátrida. Tive mais consciência dos meus privilégios e de como são injustos. Como eu posso ir visitar a terra dos pais dele porque tenho um passaporte português e ele não.

Para mim, este trabalho é também uma forma de usar os meus privilégios da melhor forma que consigo.

COMO TE TORNARES UMA JORNALISTA FREELANCER

Que conselhos tens para alguém que queira ser jornalista freelancer?

Primeiro, é preciso ser mesmo muito persistente. Para começares, precisas sempre de ter um portfólio, conseguires provar aos editores que estás a contactar que consegues fazer as reportagens que estás a propor, e que as consegues fazer bem. Os contactos são muito importantes, procurar contactos de editores, saber quem contactar e como.

No início é muito difícil, é mesmo preciso insistir. Mas também é importante ser curiosa, questionar sempre e ler muito sobre os assuntos que queres cobrir.

Acho que também ajuda encontrar uma espécie de nicho – que histórias é que não estão a ser contadas? Pode ser tanto um tema que precisa de ser mais debatido como uma região.

No meu caso, encontrei a Jordânia como um sítio onde não há muitos jornalistas, mas onde há uma crise de refugiados e muitas histórias que acho que precisam de ser contadas em inglês.

Uma coisa que eu queria acrescentar e que é um grande problema para quem quer ser jornalista é que tem que passar muito tempo a escrever de graça para criar um portfólio. Isto torna a profissão muito elitista e injusta porque só quem se pode dar ao luxo de trabalhar de graça durante algum tempo acaba por conseguir exercê-la. Eu tive a sorte de ter publicado em vários jornais os trabalhos que fiz enquanto ainda estava a estudar jornalismo, e de ter publicado artigos enquanto estava a trabalhar para as ONGs. Mas é muito difícil para pessoas de uma classe trabalhadora conseguirem fazer este tipo de trabalho – que ainda por cima continua a ser muito mal pago –  e para mim isto é muito problemático. Quer dizer que na maioria dos casos, só certas pessoas, com certos privilégios, é que conseguem trabalhar como jornalistas freelance.

Se pudesses voltar atrás no tempo, que conselho terias dado a ti mesma antes de começar esta carreira?

Se calhar diria para acreditar mais em mim mesma e no meu trabalho e para escrever mais em inglês. No início, achava que não tinha hipótese, enquanto estava na Palestina nem sequer tentei fazer propostas a jornais internacionais porque achei que ninguém teria interesse no que uma jornalista portuguesa poderia escrever, com tantos jornalistas que têm inglês como língua nativa. Demorei bastante a confiar nas minhas próprias capacidades e a perceber que o meu trabalho também podia ser interessante para os jornais internacionais, que não tinha que me limitar só ao jornalismo em português.

E qual foi o melhor conselho que recebeste?

Talvez nunca tivesse achado que tinha a mínima hipótese de trabalhar como jornalista freelance se não fosse o editor do jornal palestiniano com quem trabalhei e alguns outros jornalistas que insistiram comigo ao dizerem “Não, o teu trabalho é bom e deves continuar, tens capacidades para continuar e ser publicada em jornais internacionais”.

Tu tens fontes de inspiração?

Há muitos jornalistas e escritores que eu admiro. Uma das minhas jornalistas favoritas é bielorussa, a Svetlana Alexievich. Eu adoro o trabalho dela, acho que é extremamente corajoso e sensível. Ela tem um compromisso com justiça social admirável. Também gosto muito da Arundhati Roy, que para além de escrever livros lindíssimos de ficção também escreve crónicas e ensaios sobre justiça social, desigualdade e política na Índia. Os escritores e jornalistas que mais admiro são os que conseguem combinar o talento para contar histórias com uma forte consciência social e solidariedade, e com um compromisso para denunciar situações de injustiça e confrontar poderes estabelecidos. Em Portugal, gosto muito do trabalho da Alexandra Lucas Coelho.

Eu tenho um amigo meu que adora os livros da Svetlana Alexievich. Eu ainda não tive coragem de os ler porque sei que são muito tristes.

Sim, são mesmo muito pesados, mas quando acabas, sentes-te mais leve.

É engraçado dizeres isso porque eu sinto-me sempre pesada, é como se essas histórias fossem um espelho daquilo que eu estou a fazer para ajudar a humanidade, que é nada.

Mas acho que ler já é algo, já é fazer alguma coisa. Ouvir e sentir solidariedade, dar esse tempo para ouvir estas vozes e para sentir com elas. Mas eu percebo esse sentimento de impotência… Para mim, funciona melhor estar atenta do que não querer saber e sentir-me desligada.

Se as histórias são pesadas temos que as partilhar – assim tornam-se mais leves.

A beleza das histórias que se partilham, mesmo as mais tristes, também ajuda. É uma forma de dar sentido e de tornar mais leve o sofrimento humano.

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