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Como começar um projeto, com Madeleine Dore do extraordinary routines

Madeleine Dore é uma escritora freelancer e criadora do website Extraordinary Routines, um projeto de entrevistas sobre as rotinas de artistas e empreendedores.

Madeleine Dore é uma escritora freelancer e criadora do website Extraordinary Routines , um projeto de entrevistas sobre as rotinas de artistas e empreendedores. Ela também é responsável pela série de eventos Side Project Sessions, onde as pessoas se encontram regularmente para trabalharem nas coisas que tendem a adiar – desde escrever um livro a preencher o IRS.

Ilustração de Inês Medeiros

O MOMENTO “OK, WHAT’S THE NEXT STEP?”

Qual foi o teu momento “OK, qual é o próximo passo?”?

Em 2014, eu tinha 25 anos e tinha acabado de regressar a Melbourne depois de um ano a viver e a estudar em Copenhaga. Eu estudei jornalismo, empreendedorismo e inovação. No meu último ano de universidade, eu fiz um estágio numa agência criativa chamada ArtRebels e num jornal local dinamarquês, onde tive a oportunidade de entrevistar empreendedores na área criativa acerca de como começaram as suas carreiras.

Quando eu voltei a Melbourne, tive dificuldades em encontrar oportunidades em jornalismo, principalmente em jornalismo de arte. Eu experimentei um pouco de freelance copywriting e até tive uma breve passagem por uma galeria de arte, mas eu sentia-me desanimada e sem certezas de como alguma vez criaria a carreira que eu queria. Parecia que estava a ficar para trás, que nunca seria tão boa quanto os meus pares, e o futuro da minha carreira na área criativa era indecifrável. Eu lembro-me de sentar-me com a minha mãe na mesa de jantar com as mãos na cabeça, preocupada porque se coisas nunca fossem resultar – nesse momento, gentilmente, ela sugeriu que eu parasse de olhar para o que as outras pessoas estavam a fazer e fizesse uma lista daquilo que eu queria fazer.

“Se não houvessem restrições, onde é que eu gostava de estar daqui a cinco anos?”

Eu escrevi “escritora e editora” – e aqui estamos nós, cinco anos depois. Já fui editora-adjunto, e agora sou escritora freelancer, então houveram algumas surpresas engraçadas!

E do conselho da tua mãe, nasceu o “Extraordinary Routines”. Como foi essa decisão?

É difícil de dizer se foi por orientação ou comparação, mas eu olhei para uma amiga próxima com quem tinha estudado jornalismo e vi como o facto dela ter começado o seu próprio projeto (um zine) teve um impacto incrível na carreira dela – deu-lhe um portefólio, um nicho, e algo que lhe alimentasse a curiosidade. Isto motivou-me, por isso comecei a pensar naquilo que me trazia mais curiosidade – pessoas criativas, e como elas organizam os dias de forma a criar tempo para o trabalho delas. Assim comecei o projeto de entrevistas Extraordinary Routines. Foi o passo seguinte para construir algo para mim mesma – se não consegues encontrar o trabalho que queres, então cria-o – mas também foi uma maneira de desmistificar o processo criativo e descobrir em primeira mão como as pessoas constroem as suas carreiras.

O projeto levou-me depois depois a conseguir um trabalho como editora-adjunto de um website de notícias sobre arte, o “ArtsHub” – e desde aí que mantenho o Extraordinary Routines!

Mas como foi o processo desde a ideia à execução?

A ideia do Extraordinary Routines foi como uma semente plantada dentro de mim por algum tempo – eu sempre me senti atraída por aquelas rubricas nas revistas que perguntavam “como é um dia típico para ti?”, e durante anos sempre chateei os meus amigos para me dizerem como era a rotina matinal deles ou o que é que eles comiam ao almoço, eu só não me tinha apercebido ainda que isso podia ser um formato de entrevista por si mesmo.

Assim, quando eu me sentei para pensar realmente naquilo que eu queria que o meu projeto se focasse, a ideia começou a germinar. Eu adoro escrever listas e brainstorming, então sentei-me em frente de uma folha de papel e simplesmente descarreguei tudo o que tinha na cabeça: escrevi nomes de pessoas que queria entrevistar, escrevi uma lista de questões e aquilo que precisaria – um logótipo, um website, um gravador – e comecei depois por entrevistar amigos.

Ilustração por Inês Medeiros

Apesar de saber que queria continuar com o projeto, eu ainda tinha muito medo e resistência. Eu completei as primeiras duas entrevistas em janeiro de 2014, e não as partilhei até junho de 2014.

Foi um conselho de uma amiga que finalmente me pôs a mexer: “feito é melhor que perfeito”.

Então eu criei um site no Squarespace e partilhei a minha primeira entrevista no mesmo dia – às vezes o que tu precisas é de um pouco de responsabilização! Eu apercebi-me que o que eu queria era que o projeto simplesmente existisse, não tinha de ser incrivelmente impecável e perfeito porque podia ser reconstruído depois. Tem sido incrível continuar com este projeto estes anos todos – por muito ad-hoc que o meu calendário de publicação seja – e ter uma plataforma para falar com pessoas que me inspiram.

O projeto entretanto cresceu, e inclui agora experimentos e reflexões – eu estava a aprender tanto através das pessoas que estava a entrevistar que quis tentar introduzir algumas coisas na minha própria vida, experimentar com o meu próprio horário, e partilhar os meus pensamentos acerca dos tópicos da berra.

O que te ajudou a manteres-te focada no projeto?

O que me ajuda a manter-me focada é lembrar-me de fazer regras. Eu continuo a cair na armadilha da comparação, e a dizer para mim mesma que devia seguir religiosamente um calendário editorial e entrevistar X número de pessoas por mês, mas isto para mim é um projeto feito por amor, por isso eu tenho de me relembrar que só devo criar mais conteúdo quando a curiosidade surge. Se calhar se houvesse mais organização – ou rotina! – as coisas seriam diferentes – talvez melhores, talvez não – mas eu estou a aprender a fazer o que me interessa e resulta para mim no que toca aos projetos que eu gosto!

Ilustração por Inês Medeiros

SOBRE O EXTRAORDINARY ROUTINES

Mencionaste numa entrevista que é catártico ter acesso aos bastidores e perceber que os teus ídolos também desligam o alarme dez vezes, têm ataques de nervos e sentem-se perdidos. É essa a essência do Extraordinary Routines?

A mensagem principal é que estamos todos simplesmente a tentar descobrir o que fazer com a nossa vida – todos nós falhamos, e não existem dias, carreira ou vida perfeita. Muitas vezes nós só temos acesso à versão curada do trabalho ou vida de alguém, mas eu acho que este formato de entrevista é uma boa maneira de mostrar a diversidade de experiências criativas – a falta de rotina, o burnout, os desafios, os bloqueios, as pressões emocionais, mentais e financeiras – e eu tenho muito respeito pelas pessoas que partilharam candidamente estes desafios internos durante estes anos.

Cada entrevista ensina-me sempre algo surpreendente. Recentemente, a rotina do Austin Kleon inspirou-me muito – ele reserva a manhã para criar, e a tarde para coisas mais administrativas. O trabalho dele também flui bastante bem – ele faz um post diariamente, que depois se torna numa newsletter semanal, e os temas com o tempo resultam num livro ou palestra.

Ele falou muito sobre aceitar as nossas imperfeições, tensões e falhas: “Nós estamos tão obcecados em life hacking e em tornarmo-nos a versão mais produtiva e radiante de nós mesmos, mas muito do trabalho criativo vem de sermos pessoas que têm tensões na vida”.

E hoje em dia, o que te mantém focada?

Há medida que o tempo passa, eu entendi que trabalhar à volta de pessoas, trabalhar por períodos curtos e fazer pausas regulares são fatores chave para a produtividade – assim como aprender a ser gentil comigo mesma e lembrar-me que as coisas levam tempo.

Maior parte do meu trabalho culminou na série de eventos chamada “Side Project Sessions” – eu ouvia muitas vezes o quão fácil era adiar tarefas pessoais sem data-limite, e como ideias criativas acabavam esquecidas no fundo da lista de tarefas.

Estas sessões recordam-me de tantas lições importantes – faz mais com menos, feito é melhor que perfeito, simplesmente começa, trabalha um pouco, faz uma pausa, descansa, reflete, simplesmente aparece.

Regularmente, eu mantenho registo dos meus objetivos através do meu bullet journal, e no início deste ano comecei a usar o “The Artist’s Way”, escrito pela Julia Cameron. As páginas matinais fazem parte da minha rotina (que é quase inexistente!) e ajuda-me a explorar os meus bloqueios com mais clareza. Recomendo muito!

COMO COMEÇAR UM PROJETO?

O que achas que impede maior das pessoas de começar um projeto?

Eu acho que há muitos obstáculos internos que impedem as pessoas de começar, mas acho que é importante reconhecer alguns desafios externos também – financeiros, discriminação, falta de recursos, oportunidades ou educação.

Com ou sem estes obstáculos externos, também há desafios internos que muitos de nós vivemos. Pode ser duvidarmos de nós próprios, pode ser procrastinação, pode ser perfecionismo, pode ser indecisão, pode ser sabotarmo-nos a nós próprios. O medo tem vários disfarces – e a mim ajuda-me perguntar a mim mesma para que me serve dado obstáculo. Por exemplo, perfecionismo serve-me para adiar publicar algo que será exposto publicamente, e assim adiar potenciais críticas. Ajuda a manter-me “segura”. Mas agora que eu sei porque é que este obstáculo existe, posso explorá-lo, até perguntar porque é que eu preciso de me sentir segura – talvez eu retirasse mais felicidade se fosse mais corajosa, por exemplo.

Sofrimento e fracasso fazem parte do processo, mas, passado estes anos todos, se alguém te perguntasse “Por onde é que devo começar?”, qual seria a tua resposta?

Ilustração por Inês Medeiros

Começa sempre com curiosidade. Não te preocupes se será bom, se será popular, se será um sucesso. Isso tudo é subjetivo, de qualquer maneira. Pensa no que te interessa e te faz sentir vivo. Se não, mais vale veres uma boa série no Netflix.

Tu não precisas de um projeto ou de ser produtivo a toda a hora para teres valor enquanto ser humano, por isso pensa mesmo no que queres fazer contigo mesmo.

Quando encontrares o que te apaixona e te faz vibrar, não quer dizer que as coisas se tornem mais fáceis – vais sempre encontrar obstáculos, o medo há de vir, vais sempre adiar coisas. E isso também não faz mal. Lembra-te que pensar faz parte do processo. As coisas levam tempo, e ás vezes a melhor coisa a fazer é ficar a olhar para o nada e perder tempo!

Se precisas de uma lista para organizar as tuas ideas, ótimo, mas caso contrário, escolhe uma tarefa e começa. Tira 45 minutos e força. Explora. Podes escrever uma palavra, uma linha, mandar um email. O mais importante é começar – e deixar o momentum fazer o resto.


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Obrigada por teres lido até ao fim! Inspirada por esta entrevista com a Madeleine Dore, criei um pequeno e-book gratuito sobre como começar um projeto. Se gostavas de ter acesso a este e-book e às newsletters, subscreve aqui:

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