Alex Bez é um ativista pelos direitos dos animais e fundador do Amazing Vegan Outreach, uma organização que treina ativistas vegan como inspirar outros a agir, através de workshops, webinars e coaching.

O MOMENTO “OK, WHAT’S THE NEXT STEP?”

Qual foi o teu momento “Ok, qual é o próximo passo?”. Eu assumo que tenhas tido dois: o primeiro quando te tornaste vegan, e o segundo quando te tornaste ativista pelos direitos dos animais. Como era a tua vida antes destes momentos?

Antes de me tornar um ativista, o meu estilo de vida era bastante bom. Eu tinha um trabalho bem pago, trabalhava numa empresa como diretor de vendas. Tinha um apartamento no centro e um bom carro. Dinheiro não era um problema, por isso a minha vida era bastante confortável. Mas depois, com trinta anos, conheci uma colega vegan. Ela recomendou-me o documentário “Forks over Knives”, que eu vi, mas não me fez tornar vegan. Mas abriu-me a curiosidade. Foi assim que eu me deparei com o documentário “Earthlings” – que, para a maior parte das pessoas, é muito chocante de ver porque mostra como os animais são realmente usados para testes, entretenimento e estimação. No fim do documentário, eu decidi que nunca mais participaria no sofrimento e morte de um animal.

E como é que o ativismo entrou na tua vida?

Eu nunca fui ativo por nenhuma causa na minha vida – nenhuma causa social, política ou ambiental. Estava muito focado em mim mesmo e na minha carreira. Mas dois anos e meio depois de me tornar vegan, um amigo deu-me a conhecer a organização The Save Movement, e convidou-me para ir a uma vigília em Toronto onde pessoas vão a matadouros e esperam que as carrinhas de carga apareçam. Eles chamam a isto testemunho – olham para os animais, tiram fotos e fazem vídeos para pôr online, e dão a estes animais um pouco de amor e respeito antes de serem levados para os matadouros.

Magoar e comer animais não é algo realmente instintivo. Se houver um animal atropelado por um carro na berma da estrada, ninguém vai saltar para cima dele e começar a comê-lo.

No geral, nós evitamos causar dor desnecessária e sofrimento. Na realidade, a maior parte de nós tem valores vegan – só precisamos de ajuda para alinhar as nossas ações com estes valores.

Quando tu te tornas consciente da realidade, é difícil não fazer nada. Aquela vigília mostrou-me que aqueles indivíduos precisavam de ajuda.

Com isto, a minha carreira começou a parecer irrelevante, de certa maneira. Senti que a minha busca por estabilidade financeira não era tão importante como a luta pela liberdade e fim do sofrimento, dor e morte dos animais. Quando pões os dois numa balança, o que é que é mais importante? Naquela altura, eu estava bem financeiramente, por isso, deixei o meu trabalho.

Acabei por viajar pela América Central e do Sul, assim como pela Europa, para abrir novas unidades do The Save Movement e ir a conferências sobre os direitos dos animais. Consegui fazer algumas investigações a matadouros e documentar o que se passava dentro destes. Ver pessoalmente o que se passava com os animais dentro daquelas paredes consolidou a minha decisão de me focar em ajudar animais não-humanos. E foi assim que acabei onde estou hoje.

A partir daí, tu decidiste conduzir workshops e treinar ativistas através dos mesmos métodos que aprendeste quando eras diretor de vendas. Podes contar-nos mais acerca desta resolução?

Um dia, estava deitado na minha cama a pensar como podia contribuir mais para o movimento dos direitos dos animais. Eu já tinha feito muito trabalho fotográfico e em vídeo, em que capturava os animais e as suas histórias. E pensei que, se calhar, devia continuar com isso. Mas depois pensei que muita gente já fazia o mesmo, e muitos faziam-no melhor do que eu.

Aí, eu perguntei a mim mesmo: “Ok, no que é que eu sou bom? O que é que me distingue das outras pessoas?”

E, claro, uma das coisas que eu sabia que fazia bem era o que tinha feito durante vinte anos na minha carreira: vendas e comunicação. Mas como é que eu podia ligar isto ao movimento vegan?

Acabei então por decidir ensinar a ativistas vegan o mesmo que eu ensinei durante dez anos a pessoas do mundo empresarial. Eu sabia que muitos de nós tinham dificuldades em inspirar amigos e família, ou em fazer ações de rua. Portanto, decidi começar uma organização chamada “Amazing Vegan Outreach” (AVO), e ensinar ativistas como conectar com outros, como construir rapport e inspirar as pessoas a agir.

E como é que os workshops cresceram depois?

Enquanto eu viajei com o The Save Movement, nós organizávamos palestras e, no fim, eu perguntava às pessoas se queriam ficar para um pequeno treino sobre comunicação. Mais tarde, o website e a página de Facebook ajudaram bastante a fazer crescer a AVO. Eu comecei a fazer vídeos aos quais as pessoas davam valor e acabavam por partilhar. Agora o site oferece tutoriais online que toda a gente pode aceder de forma gratuita.

No total, eu acho que já fiz 53 workshops desde o primeiro. Quase 2000 ativistas de vários cantos do mundo participaram, e mais alguns milhares online.

SOBRE O AMAZING VEGAN OUTREACH

Qual é a mensagem principal do Amazing Vegan Outreach?

A ideia é entender realmente quais são os nossos objetivos quando falamos com alguém acerca dos direitos dos animais. Eu acho que toda a gente se deve perguntar “Porque é que eu estou a gastar o meu tempo a iniciar conversas com estranhos, amigos e colegas de trabalho? Qual é o resultado que eu pretendo com estas interações?”.

O que acontece frequentemente é que quando alguém discorda de outra pessoa, nós tendemos a entrar num debate. Mas quando debatemos com outras pessoas – mesmo que seja de uma forma simpática – estamos a tentar provar a alguém que o que nós estamos a dizer é certo, e usamos factos, dados, e argumentos lógicos para o provar.

Mas quando nós provamos que estamos certos, também provamos aos outros que estão errados. E as pessoas não gostam de estar erradas, especialmente acerca de algo tão íntimo como a comida que põem na boca.

Até há estudos que comprovam que quando duas pessoas debatem, cada lado sai mais convencido da sua posição original, porque foram obrigados a defendê-la.

Portanto, por experiência própria, a maneira mais eficaz de inspirar mudança noutros é através do coaching. Ao contrário de debater, pregar ou educar, este método é menos ameaçador para as pessoas. O coaching cria uma conversa que, essencialmente, incentiva as pessoas a pensar por si próprias. Eu ensino as pessoas a parar de debater e começar a inspirar. Nós podemos comunicar com as pessoas de uma maneira soft e guiá-las para que cheguem às suas próprias conclusões.

Tu decidiste financiar a AVO através de doações, baseado na gift economy (economia de doação). Como é que isso funciona na vida real?

Eu fiz um treino com um grupo da Califórnia chamado East Point Peace Academy. Eles fazem um trabalho fantástico com “Kingian Nonviolence”, e financiam a organização inteira através da gift economy.

A premissa principal da gift economy é que as pessoas contribuam conforme puderem – não há preço ou taxas para qualquer bem ou serviço prestado.

Se as pessoas encontrarem valor e, mais importante, queiram que outros tenham acesso aos mesmos bens ou serviços, podem fazer doações voluntárias para apoiar o fornecedor.

Eu decidi financiar a AVO da mesma forma. Há três serviços que a AVO fornece: workshops presenciais, webinars, e coaching. Todos os workshops têm custos relacionados, incluindo custos de viagem, alojamento, comida, organização, etc. Eu quero que estas oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento estejam disponíveis para todos os que precisem, sem terem de se preocupar com os custos. Todos são convidados a beneficiar destes serviços.

Eu próprio tento minimizar os custos o mais possível – fico em casa de outras pessoas e tento planear itinerários que sejam eficientes, para reduzir despesas. Além disso, comunico abertamente quais são os custos do workshop, e incentivo as pessoas – se puderem – a ajudar a cobrir estas despesas. Até agora tem funcionado bastante bem.

Alguma vez consideraste pôr um preço nos teus serviços?

Eu pensei nisso no início. No mundo empresarial, estes workshops valeriam facilmente mais de uma centena de dólares por pessoa.

Mas assim que pões um preço nalguma coisa, mesmo que seja um valor simbólico, pode haver alguém que não consiga pagar.

Eu já tive mensagens de pessoas a dizerem que a AVO mudou por completo a maneira como abordam o ativismo. Eu acho que enquanto acrescentares valor, as pessoas quererão sempre apoiar o trabalho que estás a fazer – e isto aplica-se a tudo, não só ao movimento pelos direitos dos animais.

Eu não acho que a gift economy seja muito diferente duma economia de mercado. Se tu tiveres um mau produto ou serviço numa economia de mercado, não te safas. Na gift economy, as pessoas não te vão apoiar. Sabes, a diferença é entre cobrar antecipadamente ou deixar a pessoa escolher quanto gostava de contribuir. Eu conheço alguns restaurantes que funcionam através de doações, e que são bem sucedidos.

Ficas stressado quando pensas na tua situação financeira?

Provavelmente eu devia estar mais stressado acerca disso. Para ser honesto, talvez esteja a negligenciar um pouco essa parte, neste momento. Mas eu tenho a sorte de ter tido bons trabalhos e uma boa carreira antes de fazer ativismo a tempo inteiro.

Neste momento, porque não tenho filhos ou grandes compromissos financeiros, sinto que tenho de fazer isto. Muitas pessoas têm grandes competências mas não podem desistir das suas carreiras e dedicar o seu tempo a ajudar os outros. No pior dos cenários, se eu achar que não sou capaz de gerir a AVO até um ponto que seja sustentável a longo prazo, posso sempre parar e voltar para o mundo empresarial.

COMO TE TORNARES UM ATIVISTA

O que é que responderias se alguém te perguntasse “Como é que me posso tornar um ativista pelos direitos dos animais?”

A coisa mais importante a fazer é agir – ir a vigílias, fazer ações de rua, conectar com outras pessoas que tenham os mesmos objetivos. Se fores um artista ou um cantor, podes usar esses talentos para consciencializar os outros. Isto até funciona com tatuagens de animais! Eu tenho uma tatuagem de uma vaca no meu braço, e acontece imensas vezes alguém perguntar-me sobre isso. É uma maneira simples de começar uma conversa acerca dos direitos dos animais. A liberation pledge é também um bom exemplo de ativismo. Pequenas coisas como estas que ajudam a comunicar a mensagem são ótimas.

E desafia-te a ti mesmo, esforça-te para saíres da tua zona de conforto. Foi muito desconfortável para mim ir a um matadouro e falar com pessoas na rua sobre os direitos dos animais. Mas eu prometo que se torna mais fácil cada vez que o fazes. E, entretanto, encontrarás uma comunidade que te apoia.

E por onde é que as pessoas devem começar se quiserem fazer ativismo a tempo inteiro através da gift economy?

Bem, primeiro que tudo, nem toda a gente tem de se tornar ativista a full-time. Não é realista para a maior parte das pessoas que têm uma renda para pagar, por exemplo. Mas o que as pessoas deviam fazer é combinar ativismo com as suas vidas pessoais e profissionais, e terem o cuidado de não se sobrecarregarem, porque podem ficar esgotadas.

A minha sugestão para alguém que queira envolver-se na gift economy é ter a certeza que consegue acrescentar bastante valor aos outros. Usa o conhecimento que já adquiriste na tua carreira e na tua vida para empoderar outras pessoas. Se és jovem e não tens grande experiência de vida, pode ser desafiante acrescentar valor logo do começo. Eu acho que a razão pela qual eu faço o que faço é porque passei vinte anos a tornar-me um especialista em vendas e comunicação.

E se não fores capaz de ser um ativista full-time agora, então uma coisa muito importante que podes fazer é apoiar o movimento financeiramente. Muitos ativistas podem fazer ativismo a tempo inteiro porque as pessoas que têm trabalhos decidem fazer doações para os apoiar. Todas as organizações de direitos dos animais dependem deste tipo de contribuições.

Mas foi por isso que eu te quis entrevistar. Obviamente que não é fácil, e nem toda a gente pode despedir-se assim do nada. Mas eu acho que muita gente fica parado na vida porque acham que tudo depende de um trabalho das 9 às 5. Mas tu és a prova viva que isso não tem necessariamente de ser assim.

Eu acho que devemos sempre pensar fora da caixa e não nos limitarmos ao que fomos ensinados toda a vida. Mas para fazermos isso, temos que enfrentar os obstáculos, e as pessoas que nos dizem que o que pretendemos fazer não vai resultar. Disseram-me que eu não conseguiria gerir uma organização e sobreviver sem cobrar dinheiro às pessoas, que estas tirariam vantagem de mim. Era um risco que eu estava disposto a correr.

A chave é pensar fora da caixa. Quando o teu ponto de partida é o que fazemos ou o que outras pessoas do movimento fazem, somos capazes de deixar escapar algo que já existe nas nossas vidas.

Os Vegan Hacktivists são um ótimo exemplo disto. Eles usaram as competências que tinham em tecnologia e programação, e criaram um website chamado “5 minutes 5 vegans”. É uma boa maneira de fazer ativismo online, e as pessoas apoiam-nos porque eles usaram os seus talentos únicos para promover o movimento.

Eu não posso deixar de enfatizar a importância de acrescentar valor. Assim que conseguires descobrir isso, talvez precises de trabalhar um ano ou dois para poupar algum dinheiro para começar. Sê disciplinado em executar o plano – avança, faz e persiste.

Isto foi fantástico, Alex, muito obrigada. Já perguntei tudo o que queria!

Boa! Eu tenho uma questão para ti, se não te importares.

Claro!

Bem, a minha questão é: o que é que te impede de deixar de consumir produtos que causam sofrimento a animais?

(e este foi início de uma segunda entrevista não planeada sobre a hora de almoço na cantina do meu local de trabalho, a minha necessidade de beber um cappuccino pela manhã e a minha dependência grave por chocolate, mas eu vou deixar o resultado disso para outro post…)


LISTA DE RECOMENDAÇÕES DO ALEX:
  1.  Dominion
  2. Forks Over Knives (Netflix)
  3. Cowspiracy (Netflix)
  4. E depois: Vegan Bootcamp

Se és vegan e gostavas de saber mais sobre ativismo vegan, visita: AVO’s Learning Path.


NEWSLETTER + E-BOOK “Como começar um projeto”

Obrigada por teres lido até ao fim! Inspirada pela primeira entrevista deste projeto com a Madeleine Dore, preparei um pequeno e-book grátis sobre como começar um projeto. Se gostavas de ter acesso a este e-book e às newsletters, subscreve aqui:

Name


Buy me a coffee

Se gostavas de contribuir para este projeto e para os eternos cappuccinos que bebo cada vez que escrevo uma entrevista, clica aqui.

Write A Comment