No outro dia, durante uma reunião do Zoom, eu e uns amigos estávamos a falar sobre corrida. Tivemos uma conversa de quinze minutos sobre o que as pessoas pensam enquanto correm – o Vasco fica aborrecido, a Cass ouve um podcast ou cria histórias na cabeça e a Nicoline controla os seus tempos. Como alguém que quase chumbou em Educação Física no secundário, esta conversa só aconteceu porque estamos em tempos de corona e não há mais nada para falar. Dito isto, a quota para mencionar a corona foi preenchida, por isso vamos agora falar sobre corrida…

Sobre correr…

É difícil para mim correr, mas faz-me sentir bem comigo mesma e ajuda a minha saúde mental. Um dos meus objetivos este ano é correr 5 quilómetros com a ajuda de uma app chamada “C25K”. Há alguns meses, pensei que uma boa maneira de me motivar a atingir este objetivo era ler um livro chamado What I talk about when I talk about running (“Sobre o que falo quando falo sobre corrida”), escrito por Haruki Murakami. É um livro sobre a experiência dele como maratonista, como ele começou a correr quando decidiu tornar-se escritor e como ele não consegue imaginar-se a escrever bem sem continuar a prática de corrida.

Ele explica que escrever é, por si só, uma atividade pouco saudável – ficas sentado por longas na secretária, dentro da tua própria cabeça. Ao mesmo tempo, apesar de o ato de escrever ser um trabalho mental, “terminar um livro inteiro está mais próximo de um trabalho manual”, Murakami escreve, uma vez que exige energia e resistência. Correr ajuda-o a obter isso.

“Para lidar com algo doentio, uma pessoa precisa de ser o mais saudável possível. Uma alma doente requer um corpo saudável”.

Eu escrevi esta frase no meu diário e acabei a pensar como era engraçado a comparação dele com a corrida e a escrita. Eu teria esquecido esta idea naquele momento mas, umas algumas semanas depois, comecei a ler um livro do Stephen King, chamado On Writing, no qual ele escreve:

“Como com exercício físico, seria melhor definir uma meta baixa a princípio, para evitar desânimos. Sugiro mil palavras por dia e, como me sinto magnânimo, sugiro que possas tirar um dia de folga por semana, pelo menos para começar. (…) Com esse objetivo definido, decide para ti mesmo que a porta permaneça fechada até que esse objetivo seja atingido”.

Lá estava novamente, exercício físico e escrita na mesma frase – qual é que era a cena então?

O que é que correr tem a ver com escrita?

Eu já tinha ouvido que criação de conteúdo é um músculo que precisa de ser exercitado para ser desenvolvido. Como a corrida também exige, é necessário consistência – “lê muito, escreve muito”, aconselha o Stephen King. Também já ouvi algumas vezes que, se não te apetecer escrever, deves mesmo assim sentar-te à secretária e respeitar esse momento, mesmo que fiques olhar para a parede durante uma hora. Apenas aparece, o que também é um bom conselho para quem quer começar a correr (é por isso que a minha nona vez a correr foi na realidade uma caminhada – estava muito vento, ok?).

Não foi difícil admitir para mim mesma que sou péssima com esta coisa de correr. Sabia que me tinha de sentir confortável com o fato de não poder conseguir correr à volta do lago ao pé de casa (mais ou menos 800 metros) e ter paciência com meu objetivo. E isso também pode ser aplicado à escrita – fica confortável como facto de seres uma porcaria ao início, como os autores mencionados também dizem nos seus livros.

Se fazer um aquecimento é recomendado antes de se iniciar uma corrida, o mesmo pode ser utilizado na escrita, e podes inspirar-te noutras áreas para isso. Por exemplo, o ilustrador Mattia Chus começa por desenhar ao calhas durante meia hora e a escritora Huma Qureshi sugere começar com uma frase do género “Há algo que preciso te dizer”, quando estamos sem inspiração para mais.

Isto também demonstra que o mito do artista sofredor chegou ao fim. Murakami brinca com esta ideia ao dizer que ninguém pode escrever com dores de dentes, porque “a dor bloqueia a concentração”. Ele escreve: “o saudável ​​e o não saudável ​​não estão necessariamente em extremos opostos do espectro, mas complementam-se”.

Na mesma lógica, as pessoas criativas falam sobre os benefícios de ter uma rotina e cumprir com os objetivos traçados. Murakami resume isto também: “escritores que não são abençoados com muito talento – aqueles que mal chegam lá – precisam de desenvolver os seus atributos às suas próprias custas (…) precisam de complementar o que falta da sua reserva de talentos pelos meios que puderem”.

Lentamente, as coisas que Murakami descreveu no seu livro tornaram-se ferramentas que comecei a usar nas minhas corridas de fim de semana e quando me sentava na minha secretária para escrever. O que eu usava como incentivos para continuar a escrever agora eram incentivos para colocar o meu equipamento de corrida, e vice-versa.

Escreve rápido, rápido, rápido

Em Big Magic, um livro sobre criatividade, Elizabeth Gilbert fala sobre a sua estratégia para lidar com o medo ao imaginar um carro com três passageiros: o medo, a criatividade e ela. Ela afirma:

“A criatividade e eu somos os únicos que tomamos decisões ao longo do caminho. Reconheço e respeito que tu [medo] faças parte desta família e, portanto, nunca te vou excluir das nossas atividades, mas, ainda assim, as tuas sugestões nunca serão ouvidas. Tu tens direito a um assento e a uma voz, mas não tens o poder de voto.”

Há sempre este crítico interno, irritante, que põe em risco o nosso entusiasmo. Julia Cameron, que escreveu o The Artist’s Way, chama-o de “censor”. Tu também lhe podes dar um nome, como uma amiga minha que chama a essa voz de Dominique (“Dominique, cale a boca!”).

O mesmo acontece comigo enquanto corro – uma vozinha sempre cansada demais para continuar. Quando isso acontece, lembro-me do mantra de Murakami enquanto ele percorre os últimos quilómetros de uma maratona e a mente dele é apenas quietude: “Sou eu e ao mesmo tempo não sou eu”. Mover a atenção da minha mente para o que o meu corpo está a fazer parece ajudar. É também transformar toda a corrida em algo maior do que “eu” – é cuidar da minha saúde mental.

Na semana passada, li este conselho na newsletter WriterIand, que sugeria aos leitores enganarem o seu crítico interno escrevendo muito rápido, com um prazo muito curto, para que o “censor” não os apanhasse a tempo. Eles propunham apenas meia hora de escrita.

Esta sugestão de estabelecer uma data limite também foi uma lição que tirei de uma cadeira sobre gestão de projetos criativos. Aprendi que, sem prazos, o trabalho criativo pode ser paralisante, pois ficamos presos nas nossas próprias cabeças e nunca chegamos ao fim. Da mesma forma, dei um prazo a mim mesma no que toca a correr ao inscrever-me numa corrida oficial de 5km (que foi cancelada por causa do “aquele-que-não-deve-ser-mencionado”).

E se ficares realmente paralizado, Elizabeth Gilbert recomenda que procuremos inspiração fora da escrita, como aulas de desenho ou até corrida. Ela chama a isto de “jogo combinatório”, que é “o ato de abrir um canal mental, mexendo noutro”.

O que ainda tenho de experimentar (já que ouvi duas pessoas a mencionar este conselho)

Algo que ainda estou para tentar é “parar de escrever no ponto em que sinto que posso escrever mais”, uma sugestão feita por Hemingway e seguida por Murakami. Ele diz: “Faz isso. E o trabalho do dia seguinte será surpreendentemente bom”. Numa coincidência engraçada, na semana depois de ler isto, a Madeleine Dore fez uma conexão com isso e a sua própria prática de corrida. Ela diz neste episódio de podcast que uma amiga a ensinou a parar de correr quando a corrida está ainda fácil porque “isso significa que tu não vais ressentir a próxima corrida; não te esforçaste ao ponto de temer a próxima vez. A chave para começar é parar no ponto certo ”.


TL; DR:

  • Escrever pode transformar-te num preguiçoso, mas precisas de energia se quiseres escrever bem – correr pode ajudar-te com isso.
  • Escrever é como exercício físico: define uma meta baixa, tira um dia de folga e sê consistente.
  • Lê muito, escreve muito.
  • Aparece, mesmo que a tua corrida se torne uma caminhada ou fiques a olhar para a parede durante uma hora, em vez de escreveres.
  • Sente-te confortável com ser uma merda ao princípio – estás só no começo
  • Faz um aquecimento antes de começares a escrever – frases como “Tenho uma coisa para te dizer” podem ajudar.
  • Há sempre um crítico interno – manda-o calar a boca ou escreve muito rápido, para que ele não te apanhe a tempo.
  • Algo que me ajuda a continuar a correr quando quero desistir é dizer a mim mesma: “Eu sou eu e, ao mesmo tempo, não sou eu”.
  • Dá a ti mesmo um prazo, porque demasiada liberdade pode ser paralisante, e adopta uma rotina (nenhum artista sofredor aqui).
  • Se estás sem inpiração para escrever, faz outra coisa como desenhar ou correr.
  • Algo que ainda estou para tentar é “parar de escrever no ponto em que sinto que posso escrever mais”, conforme recomendado por Hemingway.

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Estas sessões é sobre ajudar-te a descobrir qual é o próximo passo, conversar com outras pessoas sobre os teus projetos (seja um trabalho de faculdade ou um projeto de uma vida) e descobrir quais são os obstáculos que te impedem de fazer o trabalho.

(este texto soa melhor escrito em inglês, por isso clica no link para saberes mais!)

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